Alguns carros que você vê pelas ruas não estão disponíveis nas concessionárias. Além das empresas que fazem importações independentes, as próprias montadoras trazem unidades exclusivas, algumas para atender o desejo de executivos, outras para mostrar o que elas podem fazer no exterior, sem necessariamente ter que vender. É o caso dessa Ram 1500 TRX.
Ela nos mostra duas coisas que acabam magoando um bom entusiasta: primeiro, a versão mais preparada da Ram 1500, que foi substituída nos Estados Unidos pela RHO e só está nas mãos de brasileiros pela importação independente. Segundo, o famoso V8 6.2 supercharger Hellcat, que não pisou no Brasil oficialmente em qualquer modelos que ele esteve e acabou substituído por um 6-cilindros em linha, biturbo, com 548 cv e 71,9 kgfm.
O primeiro diferencial da TRX para uma Ram 1500 normal é o motor. Conhecido como 6.2 Hellcat, o V8 é sobrealimentado por um compressor mecânico que gera 0,8 bar e vai, na TRX, aos 711 cv e 89,9 kgfm. Aplicado pela Stellantis em Charger, Challenger, Cherokee e até Durango, é um dos motores de produção mais potentes do mundo e dá para entender as lamentações quando ele se foi.
Sozinho, o V8 já produz um ronco encantador na TRX. Esportiva, a picape não faz nenhum questão de esconder seus barulhos do mundo e, de fato, os Hemi tem uma sinfonia própria. Só que se alguém tem dúvida se ali é uma 1500 "tunada" ou a TRX de verdade, isso some conforme a rotação sobe e entendemos o nome Hellcat. O supercharger manda ao mundo seu som característico conforme ganha rotação e praticamente esconde o V8 nessa sinfonia.

Foto de: Motor1.com
Só que esses números superlativos não transformam a Ram TRX em algo bizarramente descontrolável. Seu sistema de tração integral e câmbio automático de 8 marchas fazem o papel de mandar toda a força do V8 para as rodas que, em nenhum momento, fica por completo 4x2. O sistema distribui automaticamente a força entre os eixos, mas basta perceber algo escorregando que a caixa de transferência trabalha para colocar tudo nos trilhos. Passa uma confiança para afundar o pé, essa é a verdade.
Justamente isso que me pegou na convivência com a TRX. Se não fosse seu tamanho natural aumentado pelas bitolas mais largas (que dá para ver o quanto cresce principalmente pelo extra adicionado perto dos faróis e lanternas) e suspensão elevada, ela não me assustou nem mesmo na cidade. O cuidado ao rodar é mais pelas faixas estreitas das grandes cidades e as pequenas vagas de estacionamento que nunca foram (ou serão...) pensadas para algo desse tamanho. É maior que a Ford Ranger Raptor, obviamente, mas faz sentido, assim como na picape média da Ford.

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Mais uma vez, a mão da eletrônica. Se a Ram TRX chega aos 100 km/h em 4,8 segundos, segundo a marca, não é algo brutal no uso. Lógico que tem bastante torque em baixa rotação e muitas vezes você nem vai ouvir o compressor funcionar enquanto o câmbio faz as trocas de forma suave e aproveitando essa força toda, mas o máximo é a suspensão adaptativa da Bilstein que vai desde "absorve tudo que passa" até "seguuura, peão".
Vamos da possibilidade de ignorar valetas, lombadas e buracos até como ela surpreende com pé embaixo. Se não bastasse a potência, a TRX tem uma direção bem direta e, se a suspensão não dar conta de segurar a carroceria, os diferenciais central e em cada eixo farão o papel de colocar a imensa picape no seu rumo nas curvas. Da mesma forma com que engole marcha por marcha e chega aos 180 km/h do limitador muito rápido, a dinâmica é equilibrada no asfalto para um carro que nasceu para a terra.

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No controle de largada, ela engole o que for pela frente. Curioso ver que a Ram projetou o fluxo de ar pro motor pela entrada no capô para suprir o que o supercharger puxa e, ao mesmo tempo, não precisa de snorkel para ter uma admissão alta e poder passar por alagados. E procure pelo carro quantos easter eggs a TRX tem em provocação a linha Raptor da Ford. É curioso.
A Ram sabe os clientes que tem. Se a TRX não chegou a tempo, não surpreenderá a chegada da 1500 RHO em um futuro próximo. Não será barata, já que uma 1500 Limited já tem um preço inicial de R$ 569.990, mas com certeza há gente interessada na picape esportiva - basta ver como o mercado aceitou a Ranger Raptor, um modelo de nicho.

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Não teremos a potência ou o ronco do V8 Hellcat, mas a nova geração evolui em dinâmica e tecnologias. Ao menos tivemos a chance de conhecer a TRX e o Hellcat por aqui, mesmo que de uma forma passageira e já fora de linha no exterior. Bem que a Stellantis poderia realmente mudar de ideia sobre o fim deste motor...