Opel Olympia voou da Alemanha ao Rio no dirigível Hindenburg, em 1936

há 1 semana 5

Na semana passada, em uma reportagem sobre os 90 anos de lançamento do Opel Olympia, nosso colega Roland Hildebrandt, do Motor1 Alemanha, citou que um carro desse modelo foi transportado de dirigível da Alemanha até o Brasil, em 1936.

E já que o Roland tocou no assunto, vamos aproveitar a deixa para contar mais sobre esse episódio — que foi, simplesmente, o primeiro frete aéreo (intercontinental, ainda por cima!) de um automóvel completo, pronto para rodar.

A ocasião era histórica: o primeiro voo comercial do LZ 129 Hindenburg, o maior dirigível do mundo. A rota de estreia partia de Friedrichshafen (cidade-sede da fábrica Luftschiffbau Zeppelin GmbH) e terminava no Rio de Janeiro — mais exatamente no campo de São José, no bairro carioca de Santa Cruz, onde a “majestosa aeronave germânica” iria inaugurar um hangar colossal.

O voo de estreia do Hindenburg foi para o Rio de Janeiro

Foto de: Motor1 Brasil

O voo de estreia do Hindenburg foi para o Rio de Janeiro

Ver o Hindenburg em ação era um espetáculo impactante: imagine um charuto prateado com 245 metros de comprimento (medida equivalente à de um transatlântico moderno!) deslizando pelos céus a 120km/h… Outra comparação: o Airbus A380, hoje o maior avião comercial do mundo, mede “modestos” 73m de ponta a ponta. É menos de ⅓ do tamanho do Hindenburg…

O voo, sem escalas, durou quatro dias (de 31 de março a 4 de abril de 1936), ao longo dos quais os jornais brasileiros publicaram seguidos telegramas que davam conta de onde estava o dirigível. A bordo estavam 91 pessoas — eram 37 passageiros e, imaginem só, 54 tripulantes!

Uma passagem no Hindenburg para o Rio custava 1.500 Reichsmark — para comparação, o salário médio anual dos trabalhadores alemães na época era de 1.700 RM. Mesmo assim, a Deutsche Zeppelin-Reederei GmbH, empresa criada para administrar os voos transatlânticos
para a América do Sul e a América do Norte, era deficitária.

A Opel, divisão alemã da General Motors, resolveu aproveitar o estardalhaço em torno do Hindenburg para fazer propaganda de seus automóveis no Brasil — mais exatamente do modelo Olympia, lançado no ano anterior e batizado em homenagem aos Jogos Olímpicos de Berlim (que aconteceriam em 1936).

O Olympia era um carrinho compacto, com soluções modernas e inéditas na marca, como estrutura monobloco e partes com ruptura programada, que absorviam parte da energia do impacto em caso de colisões (era o começo das células de segurança). As linhas eram aerodinâmicas para os padrões da época, com faróis integrados à carroceria. Havia ainda uma
simpática opção com teto de lona.

O Opel Olympia no Hindenburg - primeiro carro exportado por via aérea

Foto de: Motor1 Brasil

O Opel Olympia no Hindenburg - primeiro carro exportado por via aérea

Seu motor de 1,3 litro e 24 cv permitia alcançar a máxima de 95 km/h, o que era bastante bom para um carro pequeno em 1936. O consumo em estrada ficava na faixa dos 10,5 km/l, provando a alta qualidade do projeto. A suspensão dianteira independente garantia um ótimo
comportamento dinâmico — seu principal rival, o Ford Eifel, ainda tinha eixo rígido na frente.

Valendo-se da efeméride do 500.000º Opel produzido, a fábrica enviou um Olympia para o Rio no voo inaugural do Hindenburg. Era uma novidade absoluta. Reproduzimos aqui, com a ortografia da época, o texto publicado no jornal “O Globo” em 2 de abril:

“É a primeira vez que se transporta pelos ares, em todo o mundo, um carro completo, em estado de funcionar e com todos seus pertences. Este facto vem, pois, marcar a abertura de uma nova phase na esphera dos transportes, estabelecendo de maneira imprevista e curiosa novas relações entre a navegação aerea e o automobilismo”.

Carregado na Alemanha com 50 mil quilos de óleo diesel para alimentar seus quatro motores Daimler-Benz, com 1.200 cv cada, o LZ 129 Hindenburg tinha 14 mil quilômetros de autonomia de voo e pôde vir de Friedrichshafen ao Rio sem qualquer escala — uma façanha técnica que somente seria superada décadas depois na aviação comercial.

Imagine que, nos anos 30, as viagens entre a Europa e o Brasil normalmente eram feitas em navio e não levavam menos que 12 dias (no trecho Lisboa-Rio, por exemplo). Pois o Hindenburg podia encurtar esse tempo para 4 dias, dependendo das condições climáticas!

No Hindenburg - passageiros no deck de observação e tripulante no posto de comando

Foto de: Motor1 Brasil

No Hindenburg - passageiros no deck de observação e tripulante no posto de comando

Seus passageiros iam com todo o conforto, como se estivessem em um transatlântico de luxo, dormindo em cabines, com direito a um belo restaurante, grandes janelas para ventilar o ambiente e observar a paisagem e até uma sala de fumantes (você teria coragem de acender um “habano” estando a bordo de um charuto com 200 mil m³ de hidrogênio?).

Acompanhada dia a dia pelos jornais, a viagem inaugural ocorreu sem imprevistos. O Hindenburg foi amarrado no hangar de Santa Cruz às 7h30 de 4 de abril de 1936, um lindo
sábado de sol.

Havia um ramal ferroviário especialmente para servir ao aeroporto, o que permitiu a uma pequena multidão de curiosos vir desde a Central do Brasil para acompanhar a chegada do novo dirigível. De seu bojo começaram a descer malas, caixas de chapéus e até um cachorrinho.

“Por fim, foi iniciado o desembarque do automovel. Preso por cabos, com toda a prudencia, foielle desembarcado. Retirado do hangar, empurrado pelos populares, foram batidas variaschapas e filmado pelo representante da fabrica no Rio. Foi convidado a dirigir o carro, no seupercurso para a cidade, o dr. Edgard Estrella, Inspector Geral do Trafego”, descreveu o “Correioda Manhã” no dia seguinte.

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Foto de: Motor1 Brasil

Opel voa para a América do Sul

O jornal carioca “Diário de Notícias” deu mais detalhes:

“Era realmente curioso saber como haveria de desembarcar um automovel completo, armado, do bojo de um dirigível que não tem portas nem escotilhas para a descarga de volumes de tal porte. Assim que o grande dirigivel foi amarrado no centro do hangar, foi, pode-se dizer, apalpado minuciosamente pela maioria dos presentes, no intuito de descobrirem a abertura que deveria dar sahida ao bello carro Opel. Tal abertura, porém, não existiu. É que essas aberturas não apparecem na parte exterior, que é intelramente vedada por lona impermeabilizada. A curiosidade dos presentes aguçou-se quando quatro homens da tripulação se lançaram ao dirigivel de canivetes em punho, abrindo a procurada escotilha pela qual seria descarregado o Opel. E à proporção que a abertura se fazia, iam os curiosos enfiando as cabeças, aos magotes, na ansia de descobrirem o bello carro allemão. Dentro de pouco mais de vinte minutos, o carro descansava no sólo sobre suas proprias rodas, sendo então alvejado por numerosos photographos e operadores cinematographicos, ávidos de documentarem no celluloide o desembarque do primeiro automovel transportado pelos ares entre dois continentes.”

Tão logo foi desembarcado da “majestosa aeronave”, o Opel seguiu — com quatro batedores montados em motos Harley-Davidson — para a Avenida Rio Branco, 79, onde funcionava a Theodor Wille & Cia. Ltda., o dinâmico agente da Opel no Rio.

Nos meses seguintes, o pequeno Olympia que “cruzou o céo do Atlantico Sul no bojo do novo zeppelin” foi exibido na vitrine (ladeado por uma bandeira do Brasil e por outra da Alemanha nazista, com a suástica), atraindo pequenas multidões.

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Foto de: Motor1 Brasil

Anuncio Opel Hindenburg 1936 

A badalação era tamanha que, na edição de 9 de abril, “O Globo” trazia no alto de sua primeira página outra notícia sobre o Opel “meio milhão”. Desta vez, a novidade era que o carro subira ao Palácio Rio Negro, em Petrópolis (residência de verão dos presidentes da República), para ser mostrado a Getulio Vargas.

“Esperava o auto uma multidão de petropolitanos”, conta o texto, que entrava em detalhes sobre o exótico frete aéreo do Olympia: “No transporte do Opel, cujo fabrico custou a cifra de16 contos, foram gastos nada menos de 52 contos!”.

Somente em julho o famoso carro foi vendido. Os interessados eram tantos que a Theodor Wille & Cia. Ltda. teve que organizar um sorteio entre seus clientes para decidir quem teria direito à compra. O felizardo foi um certo José Adonias de Araujo, conforme nos informa o “Correio da Manhã” de 23 de julho de 1936. A entrega do Opel rendeu uma pequena cerimônia e mais propagandas nos jornais.

Em 1937, a tragédia do Hindenburg pôr fim à era dos grandes dirigíveis de passageiros

Foto de: Motor1 Brasil

Em 1937, a tragédia do Hindenburg pôr fim à era dos grandes dirigíveis de passageiros

O Hindenburg teve uma carreira curta e infausta: em 6 de maio de 1937, foi destruído por um incêndio quando preparava-se para pousar em Nova Jersey, nos Estados Unidos. Uma centelha de causas até hoje não explicadas inflamou o hidrogênio que mantinha a nave no ar, transformando o “transatlântico voador” em uma bola de fogo. Das 97 pessoas a bordo, 35 perderam a vida.

Acabava ali a era dos grandes dirigíveis. Sobrou apenas um dos maiores hangares do mundo, no antigo aeroporto em Santa Cruz, logo transformado em base aérea militar, sede do 1º Grupo de Aviação de Caça e outras unidades.

Os dias de glória da Theodor Wille & Cia. Ltda. também estavam contados. Com a Segunda Guerra Mundial, iniciada em setembro de 1939, as importações de Opel foram interrompidas. Em 1941, o governo dos EUA incluiu a Theodor Wille em uma lista de empresas proibidas de fazer negócios com companhias norte-americanas (leia-se, General Motors). Em 1943, já depois da entrada do Brasil na guerra, dois executivos da antiga representante Opel no Brasil foram presos, acusados de espionagem. A firma foi liquidada em 1945.

Do outrora famoso Opel que voou de Friedrichshafen ao Rio, pouco se sabe. Por muitos anos, um colecionador carioca disse que seu Olympia Cabriolet era o mesmo da viagem inaugural do Hindenburg. Nos anos 2010, o carro foi vendido para uma coleção de São Paulo e hoje faz parte do acervo do Carde, em Campos do Jordão (SP). Mas o próprio Luiz Goshima, diretor do museu, não crê que seja o mesmo exemplar. Que fim terá levado o pioneiro do transporte aéreo?

Sic transit gloria mundi

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