O grupo estatal Iran Khodro Company (IKCO), maior produtor de carros e caminhões do Irã, foi privatizado no mês passado. Isso deverá marcar uma nova era para a indústria automotiva do país, conhecida por estender por muitas décadas o ciclo de produção de velhos modelos ocidentais — em particular, da Peugeot.
Por muitos anos, a marca francesa investiu em joint ventures com a indústria iraniana. Contudo, em 2018, a Peugeot (então do grupo PSA) teve que ceder à pressão dos Estados Unidos e se retirar do país dos aiatolás — na época, tinha nada menos do que 34% do mercado local. Ainda que oficialmente afastada, a Peugeot deixou um grande legado automobilístico por lá, por meio de sua antiga parceira IKCO. É uma história complicada, mas tentaremos explicar…
Casamento por acaso
O que hoje conhecemos como Iran Khodro (“Irã Automóveis”, em farsi) nasceu em 1962 como uma empresa privada. Chamava-se originalmente Iran National e pertencia aos irmãos Ahmad e Mahmoud Khayyami. Seu único carro de passeio era o Paykan (“a flecha”), uma versão iraniana do Hillman Hunter, sedã do grupo britânico Rootes (que reunia marcas como Hillman, Humber, Commer, Sunbeam e Talbot).
Ainda nos anos 60, a Chrysler comprou o Rootes Group, transformando um conglomerado de empresas em Chrysler Europe, com fábricas na Grã-Bretanha, França e Espanha. Tamanha expansão, porém, não deu certo e a companhia norte-americana logo precisou voltar seus esforços para os EUA, onde estava à beira da falência.

Foto de: Jason Vogel
Paykan, o carro nacional do Irã entre 1967 e 2005 (1)
Diante da oportunidade, a PSA Peugeot Citroën adquiriu em 1978 — por apenas US$ 1 — o que sobrou da Chrysler Europe. Nesse balaio, a PSA ficou com todos os direitos sobre o Hillman Hunter e transferiu o ferramental de produção do modelo para o Irã, que pôde aumentar o índice de nacionalização do Paykan. Assim começou, meio ao acaso, a longa parceria da Peugeot com a indústria automobilística iraniana.
Sai Xá, entra Aiatolá
Com a Revolução Iraniana, em 1979, o país deixou de ser uma monarquia autocrática pró-EUA, comandada pelo xá Reza Pahlevi, para tornar-se uma república islâmica, liderada pelo aiatolá Khomeini.
O novo governo nacionalizou o setor automobilístico, expropriou a Iran National de seus antigos donos e rebatizou a companhia como Iran Khodro. A empresa ainda era a líder de vendas no país mas, negligenciada durante a Guerra Irã-Iraque (1980-1988), esteve a ponto de quase falir. Com o fim da guerra, foi revitalizada — e muito por conta da parceria com a Peugeot.
Como havia adquirido (por US$ 1, lembram?) os direitos sobre a antiga Hillman, a Peugeot agora recebia bons royalties pela licença de produção do Paykan que, a essa altura, era considerado “o carro nacional do Irã”. Além disso, o Paykan passou a ser equipado com motor do Peugeot 504.
Em 1988, os dirigentes da Iran Khodro quiseram modernizar a produção e buscaram um parceiro para tentar substituir o Paykan. Naturalmente, a IKCO procurou a Peugeot, que havia acabado de lançar na Europa o modelo 405 — um moderno e elegante sedã médio com carroceria desenhada na Pininfarina.

Foto de: Jason Vogel
Peugeot Pars (1999–2023), um 405 com jeito de 406
Foi assinado um acordo e assim, em 1991, o Peugeot 405 começou a ser fabricado no Irã. A primeira versão feita pela IKCO teve motores 1.6 ou 1.9 carburados e ficou em linha até 2002, seguindo o estilo original francês.
O 405, contudo, fora descontinuado na Europa em 1996 — enquanto a IKCO queria modernizar o sedã para mantê-lo em produção. Assim nasceu o Peugeot Safir, rapidamente rebatizado de Peugeot Pars, em razão de direitos de propriedade do nome.
Além de receber motores mais evoluídos da PSA, o carro passou por uma reestilização completa: a Iran Khodro adaptou o monobloco original do 405 com a frente, a traseira, o painel e boa parte do interior do modelo 406 francês (1995-2004).
A Peugeot bem que tentou oferecer a produção local do 406 “de verdade”, mas a Iran Khodro preferiu um modelo mais simples, barato e robusto — específico para o Irã — usando apenas as referências de design do sedã mais moderno. Com o tempo, foram introduzidas mudanças, como painel e volante novos (para abrigar airbags), repetidores de seta nos retrovisores, luz de circulação diurna e tomadas USB.
O Peugeot Pars fez um sucesso gigantesco no Irã e foi exportado em kits SKD para montagem no Egito, no Senegal e até no (ex-inimigo) Iraque. Por fim, a Iran Khodro fez uma joint venture com a companhia AzerMash para fabricar o Pars no Azerbaijão, com o nome Peugeot Khazar 406.
Foi criada ainda uma versão limousine como carro cerimonial ou para uso em embaixadas. Exemplares desse Pars esticado chegaram a ser vendidos para Turquia, Índia, Paquistão e Afeganistão.
O êxito foi tamanho que o Pars permaneceu em produção no Irã até 2024. Somente foi retirado de linha por causa de novas exigências de segurança da Organização Nacional de Padrões do Irã. Com projeto da década de 80 (lembre-se que era um 405 com facelift), o monobloco tinha colunas pouco resistentes para os padrões atuais, além de pedais e barra de direção “invasivos" em caso de colisão.
Em 2018, quando a Peugeot foi obrigada a cortar relações com a IKCO, o Pars era o terceiro modelo mais vendido da marca francesa em todo o mundo, com 100 mil unidades/ano. Com o fim da produção do Pars, as vendas da IKCO foram reduzidas em 42%. Em janeiro de 2025, a estatal automotiva iraniana foi privatizada.

Foto de: Jason Vogel
Peugeot Roa (2006–13), um Paykan com pele de 405
Outros descendentes
O velho sedã Paykan (ou seja, um Hillman Hunter de 1967) foi produzido até 2005 — e sua plataforma rendeu o mais exótico descendente de Peugeot no Irã.
O modelo se chamava Peugeot RD, mais tarde rebatizado de Peugeot ROA, e nada mais era que um Paykan vestido com a lataria do 405. Essa combinação foi feita para agradar aos motoristas de táxi mais conservadores, eternos fãs do robusto Paykan.
Esse insólito Peugeot 405 com motor longitudinal tração traseira tinha uma versão a GNV e foi fabricado até 2012. Deu origem ainda a uma picape, a IKCO Arisun, produzida até 2022.

Foto de: Jason Vogel
IKCO Samand (2001–11) - plataforma e mecânica do 405
Samand: na base do 405
No fim dos anos 90, a Iran Khodro decidiu lançar um modelo além do Paykan e do Peugeot 405/Pars. Encontrou um projeto pronto no Reino Unido.
A empresa britânica First Automotive Company havia desenhado, por encomenda de uma fábrica de Taiwan, um sedã médio de quatro portas que aproveitava plataforma, motor e câmbio do Peugeot 405. A companhia taiwanesa, contudo, faliu antes de o modelo entrar em produção.
A IKCO, então, comprou os direitos de fabricação, aprimorou o projeto em universidades de tecnologia iranianas, e começou a fabricar o sedã, batizado-o de Samand, nome de uma raça de cavalos velozes.
Desde seu lançamento, em 2002, a família Samand já passou por diversas atualizações, gerando derivados como o Sarir (2004), o Soren (2007) e o Dena (2014).
O atual IKCO Dena+ tem cerca de 80% de seus componentes projetados e construídos no Irã. Mesmo assim, sua plataforma ainda guarda parentesco com a que era usada no Peugeot 405 e o motor 1.6 16v é uma versão local do TU5 JP4.

Foto de: Jason Vogel
Peugeot 206 iraniano (2001–12)
O Peugeot 206 e seus filhos
Lançada na França em 1998 e no Brasil em 1999, a linha 206 também sobrevive até hoje no Irã — ainda que a Peugeot (hoje uma marca do grupo Stellantis) não esteja mais atuando oficialmente no país desde 2018.
Produzido pela Iran Khodro desde 2001, o Peugeot 206 já teve diversos derivados no país: 206, 206 SD (sedã), 207i (o mesmo 206 reestilizado que tivemos no Brasil entre 2006 e 2014) e 207i SD (sedã) e o IKCO Runna.
Em 2019, a companhia comprou a licença para produzir no Irã o sedã 301. Desde então, o modelo teve suas linhas modificadas e foi rebatizado de Tara. Na grade, o logotipo com o leão da Peugeot deu lugar ao cavalinho da IKCO.

Foto de: Jason Vogel
IKCO Reera - plataforma do Peugeot 2008
E o futuro?
Com 90 milhões de habitantes, uma produção anual (nada desprezível) de 1,1 milhão de automóveis e um embargo refreando a entrada de marcas ocidentais no país, é natural que o Irã venha atraindo parcerias com fabricantes da China para manter sua mobilidade.
Hoje, a Iran Khodro também produz localmente os SUVs da chinesa Haima — e tudo indicava que as antigas origens Peugeot seriam definitivamente apagadas. Mas eis que, no ano passado, a companhia iraniana passou a produzir um arrojado crossover IKCO Reera, de projeto próprio e… plataforma do Peugeot 2008. Tão cedo essa história não vai acabar.