
O fotógrafo Renato Navarro viveu uma situação ruim na semana passada, quando utilizava o recurso de estacionamento automatizado do seu GWM Haval H6 PHEV19, o SUV híbrido plug-in de R$ 244.000.
"Usei o assistente de estacionamento no meu prédio e o Haval viu a coluna (eu vi na imagem e ele sempre estacionou nesta), ignorou e enfiou o para-choque nela", disse em um grupo de donos do carro no Facebook. "A GWM tem alguma responsabilidade pelo carro ter feito isso?", indagou, gerando um debate farto nas postagens.
Ao UOL Carros, Renato explicou melhor o incidente e disse que não tem costume de usar o sistema de automação. Foram algumas tentativas anteriores com sucesso, "acho que umas três vezes, porque nas outras que eu tentei ele não detectou o local de estacionamento", explica.

O sistema havia funcionado duas vezes justo na vaga fatídica. Na manobra que acabou em batida, o motorista afirma que estava de olho no carro, mas teve dificuldade de se situar, tanto pela câmera de ré quanto pelo vidro traseiro. "Foram pouquíssimos segundos. Quando vi que precisava frear, o carro já estava enfiado na pilastra".
A culpa é do carro?
A responsabilidade em casos assim é uma dúvida crescente no Brasil, onde os chamados ADAS — sistemas avançados de auxílio ao motorista, em inglês — começam a se popularizar. Mas a ambiguidade nas instruções já causou problemas grandes nos Estados Unidos, onde a Tesla foi obrigada a mudar o nome de seus ADAS devido a casos análogos ao de Renato Navarro, mas de desfecho bem mais grave.
A empresa de Elon Musk vendia seus pacotes de automação veicular como Autopilot e Full Self-Driving (direção totalmente autônoma, na tradução livre). Os legisladores da Califórnia disseram que os nomes induzia as pessoas a acreditarem que, de fato, seus Tesla eram totalmente autônomos.
Desde 2023, ambos vêm acompanhados do termo Supervised ("supervisionado") em peças publicitárias e afins. Nem isso, porém, impediu memes com fotos de pessoas dormindo, jogando videogame ou lendo livros enquanto seus Tesla se comandavam.

Também houve dezenas de acidentes e pelo menos duas mortes ligadas à confiança excessiva na tecnologia, segundo a NHTSA. Analistas independentes afirmam que tais números chegam às centenas, e "propaganda enganosa" matou até dezenas de norte-americanos.
O quão automático é meu carro?
Ao contrário da eletrificação, a automação veicular ocorre de maneira mais fragmentada. "As montadoras têm um limite de preço. Dentro disso, elas vêm tentando colocar o máximo de recursos automatizados possível. É algo que vêm agradando o brasileiro", diz uma fonte do mercado.
No caso do GWM Haval H6 PHEV19, há controle de cruzeiro adaptativo, frenagem autônoma de emergência, câmera 360º com função "capô invisível", gravador de dados de eventos (espécie de "caixa-preta"), alerta e frenagem de emergência de tráfego cruzado, entre outros.

Nas peças publicitárias, também são anunciados Sistema ativo de estacionamento "Full Park assist" e "Auto reverse assistance" adaptativo - refaz os últimos 50m percorridos e reconhece novos obstáculos.
Em outras palavras, o carro consegue, sob certas condições, se estacionar por conta própria. Também é possível meio que 'rebobinar' o estacionamento, para sair de uma vaga em que foi difícil entrar.
São tantos recursos que algumas marcas priorizam o uso de siglas, como ACC, AEB e RCTA. Além disso, estratégias de marketing e imprecisões na tradução podem fazer com que a mesma coisa seja chamada por nomes diferentes.
Manual é mais importante do que nunca
Diante desse novo dicionário, entretanto, é unânime a recomendação, por todas as montadoras, de que o condutor leia o manual do carro antes de utilizar qualquer coisa. Vários modelos inclusive oferecem-no em e-book, acessível na própria central multimídia.
No caso da propaganda do Haval H6, "assist" e "assistance" não foram escolhidas à toa: tais termos reforçam, em inglês, que o computador é só um assistente; cabe ao ser humano a responsabilidade do que está acontecendo.
"Embora seja uma tecnologia avançada e eficiente adotada pela maioria das montadoras para facilitar o processo de baliza, é essencial que o motorista mantenha o controle do veículo durante todo o procedimento", disse a GWM em nota ao UOL Carros.
No manual do Haval H6, os alertas são mais explícitos e em bom português: o sistema "serve apenas como auxílio" e "durante o estacionamento, o motorista deve observar as condições circundantes e as mensagens de aviso de estacionamento em tempo real", diz o documento.

A reportagem consultou manuais de carros vendidos no Brasil por Ford, Toyota, Mercedes-Benz e Honda, entre outros. Da mesma forma que na GWM, os livretos são claros quanto à necessidade de supervisão constante do computador. E não são meras notas de rodapé: no caso do Mercedes-Benz GLE, por exemplo, esse alerta aparece cerca de 80 vezes ao longo das páginas.
Não obstante, o artigo 28 do Código de Trânsito Brasileiro diz: "o condutor deverá, a todo momento, ter domínio de seu veículo, dirigindo-o com atenção e cuidados indispensáveis à segurança do trânsito".
Logo, segue proibido deixar o computador desacompanhado. Assim como as crianças, eles ainda estão aprendendo.