É o caso do empresário Eduardo Menezes, de 42 anos, que encheu a carteira hoje de Isa Energia (ISAE4), Klabin (KLBN4), Bradesco (BBDC3) e Banco do Brasil (BBAS3). Ao UOL, ele comentou que entende a queda dos mercados nesta semana como uma tempestade perfeita para conseguir intensificar e reforçar o aporte nas ações que investe. Na visão dele, os preços caem, mas os fundamentos permanecem, então conseguir investir em mais ações se traduz em mais dividendos no futuro.
"Investidor previdenciário adora uma Black Friday fora de época. Nada como rumores, incertezas do mercado nacional e internacional para ter aquela oportunidade que tanto esperamos. As incertezas derrubaram os preços das bolsas, mas não os fundamentos de algumas empresas", comenta.
Outro investidor que usufruiu da queda na B3, foi o Plínio Batista Porto, procurador municipal de 37 anos. Ele conta que investiu com mais força do que em dias normais, comprando ações da Klabin (KLBN4), Isa Energia (ISAE4), Itaú (ITUB3) e até sobrou um trocado para comprar um BDR (recibo de ação) da Berkshire Hathaway (BERK34). "Imaginei que esse tarifaço é uma estratégia de negociação dos EUA e conforme vão acontecendo as conversas individuais com os países e as tarifas vão diminuindo, as transações vão se assentando. É um pânico excessivo do mercado, portanto uma oportunidade de fazer aportes", justifica.
Retorno em dividendos dispara na semana
Os investidores não estão errados. De fato, a forte queda das ações nos últimos dias impulsionou o dividend yield (retorno em dividendos) de alguns ativos. Levantamento exclusivo de Einar Rivero, sócio-fundador da Elos Ayta Consultoria, para o UOL revela quais são as 20 ações que apresentaram maior crescimento de dividend yield diante o caos da guerra comercial.
Foram considerados ativos dos índices Ibovespa, Small Caps, Indice de Dividendos e IBRX100. O estudo leva em conta a valorização das ações desde 27 de março, quando o Ibovespa atingiu a sua maior pontuação, até o fechamento de 3 de abril, já com os acontecimentos do tarifaço.
No estudo é possível encontrar também qual era o dividend yield projetado para os próximos 12 meses, tanto no dia 27 de março quanto em 3 de abril. É apresentada também a variação em pontos percentuais desse crescimento do retorno em dividendos nesse período.
Vale lembrar que o dividend yield projetado tem como premissa que a ação vai manter a mesma política de dividendos dos últimos 12 meses nos próximos 12 meses e ter um lucro igual ou superior ao do último ano. O estudo não considera dividendos extraordinários no cálculo.
No levantamento, o investidor também encontra os dividendos por ação informados pelas empresas à B3 nos últimos 12 meses até o dia 3 de abril. Um dos critérios para integrar a lista é que a empresa não tenha anunciado novas distribuições entre 27 de março e 3 de abril, para não distorcer a amostra.
Veja abaixo as 20 ações que experimentaram maior crescimento do dividend yield diante da tempestade perfeita:
Separando joio de trigo
Embora o petróleo Brent esteja em baixa, cotado a cerca de US$ 65 o barril e as ações da Petrobras (PETR4) continuem de tombo em tombo desde o anúncio do tarifaço, os analistas ainda estão calmos e confiantes nos fundamentos da companhia.
Gabriel Duarte, analista da Ticker Research, acredita que a Petrobras será a petroleira menos impactada diante da volatilidade do mercado pelo seu potencial de sustentar o preço do barril em patamares mais elevados.
"Como a política de preços da empresa não prevê repasse imediato da variação do barril de petróleo, mesmo que o Brent continue caindo, a empresa consegue sustentar o preço atual e, assim, aumentar sua margem", explica Duarte. Para o analista, a queda das ações é oportunidade de compra.
Duarte projeta um dividend yield entre 13% e 15% em 2025 e recomenda comprar as ações até o limite de R$ 40.
Bruno Oliveira, analista do Vida de Acionista, também considera que Petrobras está barata, a preços e múltiplos, e que tem um potencial que pode se destravar com a Margem Equatorial, o que a tornaria interessante para uma carteira de dividendos no longo prazo.
Contudo, ele aconselha ao investidor iniciante e intermediário a não ter a empresa como posição principal da carteira de dividendos e sim fazer uma alocação complementar, por conta da forte volatilidade. "Ter uma grande posição em Petrobras não é algo saudável do ponto de vista psicológico, exceto se o investidor tiver muita experiência neste segmento", comenta. Para 2025, a projeção de dividend yield de PETR4 é de 11,92%, com preço justo de compra de até R$ 51.
Sergio Biz, sócio e analista do GuiaInvest, considera que o mercado exagerou um pouco ao penalizar as petroleiras que derretem na bolsa, principalmente Petrobras (PETR4) e Petroreconcavo (RECV3), as quais considera oportunidades de compra nos preços atuais.
Segundo Biz, enquanto o petróleo estiver na faixa dos US$ 65, ambas as petroleiras vão ter capacidade de gerar caixa e continuar distribuindo bons dividendos. "O mercado está reagindo de forma negativa por receio de uma desaceleração econômica impactar os setores", diz.
Outras commodities
Ainda se falando em commodities, outra que surfa na tempestade é a CSN Mineração (CMIN3). O dividend yield projetado dela saltou de 12,32% para 13,32%, alta de 0,99 pontos percentuais.
Oliveira destaca que a companhia está bem adaptada a turbulências macroeconômicas e globais e já vinha de um resultado forte em 2024, que ajudou a fortalecer seus fundamentos.
Uma vantagem é que a CSN Mineração tem um endividamento negativo de R$ 4,64 bilhões, o que se traduz em caixa. Com a Selic elevada, a receita financeira da companhia aumenta.
Com a recente disparada do dólar, exportadoras como a CSN Mineração são favorecidas, segundo Oliveira. O analista também cita que o ciclo de investimento da mineradora já está definido, o que deixa ela blindada operacionalmente e financeiramente. "Se a Selic continuar subindo, a inflação avançar, o poder de compra do brasileiro cair, a CSN Mineração continuará entregando fortes resultados", defende.
Comprando CMIN3 abaixo de R$ 5,50 é possível garantir um dividend yield de 10%, segundo o analista. O dividendo líquido esperado para este ano é de R$ 0,55.
O mesmo efeito se aplica a outra mineradora da lista, a Vale (VALE3), que não tem seus fundamentos alterados pelo tarifaço de Trump, apesar de ter perdido bilhões em valor de mercado nos últimos dias. Victor Bueno, sócio de analista da Nord Research, destaca que as tarifas não impactam diretamente a Vale porque a mineradora não vende para os EUA e enquanto tiver minério de ferro acima de US$ 100 nada muda. Ele espera um dividend yield entre 8% e 9% par este ano.
Guilherme La Vega, analista da Arkad Invest, cita também a Ferbasa (FESA4). Na visão dele, a companhia não terá impacto significativo da guerra comercial porque vende commodities muito específicas e seu principal mercado não é os EUA. "Apesar do impacto de segunda ordem, nenhum efeito material", comenta.
Nas perenes
Nos setores tradicionais também há oportunidades como Cemig (CMIG4) e Copasa (CSMG3).
Na Cemig, Duarte explica que o tarifaço tem impactos apenas indiretos, como em caso de uma recessão econômica, com menos dinheiro na mão do consumidor, o consumo de energia enfraqueceria. Contudo, por ter uma estrutura diversificada em geração, transmissão e distribuição, apenas o segmento de geração talvez sentiria um impacto maior. "Mas não é um setor que tende a sofrer", reforça.
Duarte destaca a previsibilidade de resultados da companhia, por atuar em um setor regulado. Para o analista, a geração de caixa robusta favorece os dividendos e ainda existe a possibilidade de privatização no médio e longo prazo que pode multiplicar o valor da ação.
Ele projeta um dividend yield de 8% em 2025 e recomenda a compra até o preço justo de R$ 12.
Biz, do GuiaInvest, lembra que a Cemig vem sofrendo quedas constantes antes mesmo do tarifaço. Ele cita que um conselheiro da companhia renunciou e o mercado começou a precificar a queda dos dividendos futuros.
Para o analista, o mercado exagerou, dado que se trata de uma empresa com baixo endividamento, previsibilidade de receitas, margem de lucro alta, que se encaixa em uma carteira de renda para longo prazo. "Cemig estava pagando um dividendo muito elevado, pode até cair no futuro, mas ainda continua interessante para renda passiva", comenta Biz e projeta um dividend yield de 9,5% para 2025. A recomendação é comprar até R$ 10,50.
Na Copasa, La Veja reforça que o tarifaço também não impacta a companhia de saneamento, contudo lembra que a companhia vem sofrendo desde os resultados do 4° trimestre de 2024, que não foram positivos, assim como manifestações da nova gestão de que não haverá pagamento de proventos extraordinários. "Uma pior operacional poderia até pressionar os dividendos regulares em 2025", aponta o analista.
E você investidor, aproveitou para abocanhar algumas ações nesta semana? Ou está torcendo para a bolsa continuar em queda na próxima?
Reportagem
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