Essas tarifas vão machucar. Muito. Pelos meus cálculos, esta rodada de tarifas pode ser 50 vezes mais dolorosa do que aquelas que Donald Trump instituiu em seu primeiro mandato. Isso significa que elas vão remodelar a vida do americano de maneiras muito mais fundamentais.
Para ilustrar como, vejamos um exemplo prosaico: a máquina de lavar. Em 2018, as tarifas relativamente modestas de Trump fizeram os preços das máquinas de lavar subirem quase US$ 100 (R$ 583). Como resultado, muitas famílias optaram por manter suas máquinas antigas por mais tempo. Mas essa escolha gerou um novo conjunto de custos: barulhos da máquina com muito peso, montes de roupas amassadas ainda pingando após um lavagem e contas de energia e água mais altas.
Em outras palavras, o custo total de uma tarifa não é apenas o que sai da sua conta corrente. O tempo gasto para reorganizar as coisas na lavadora é um custo. O tempo torcendo camisetas encharcadas é um custo. Tarifas são caras não apenas porque aumentam os preços, mas porque forçam o consumidor a tomar decisões diferentes que vão extrair um tipo diferente de custo ao longo do tempo.
Tarifas pequenas criam problemas pequenos. Tarifas grandes criam problemas enormes. Veja a tarifa de 25% sobre veículos, que deve aumentar preços em cerca de US$ 4.000 (R$ 23.320). Muitas famílias, como a minha, provavelmente decidirão não comprar um segundo carro. Isso cria problemas muito maiores do que uma lavadora envelhecida. Agora, estamos constantemente equilibrando como levar nossos filhos a todas as suas atividades e a nós mesmos ao trabalho, com apenas um carro.
E não são apenas os carros. Estas são tarifas abrangentes, então elas vão distorcer praticamente todas as compras que o americano fizer. Em cada caso, ele terá que parar cálculos rotineiros, recalibrar e encontrar uma maneira de se virar —talvez substituindo vegetais frescos por congelados, um medicamento menos eficaz por um importado mais caro, ou xarope de milho por açúcar. E em cada caso, ele sai perdendo.
A propósito, as tarifas não mudam apenas suas decisões de compra, elas também mudam o que as empresas produzem. Assim como as tarifas levam o consumidor a comprar alternativas menos desejáveis, elas levam as empresas a direcionar trabalho e capital para atividades menos desejáveis —ou seja, menos produtivas.
As tarifas anunciadas na quarta-feira (2) são cerca de dez vezes mais altas do que a maioria dos outros países industrializados, e mais altas do que as infames tarifas Smoot-Hawley (famosas pela Grande Depressão).
As últimas tarifas de Trump levarão os americanos a repensar não apenas se devem substituir sua máquina de lavar —como fizeram em 2018— mas também suas secadoras, geladeiras, fogões, mantimentos, roupas, carros e até mesmo itens essenciais do dia a dia.
Folha Mercado
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Muitas das substituições que vamos fazer vão ser bastante dolorosas. Se uma tarifa de 1% leva a trocar o guacamole real por uma alternativa à base de ervilha, então o cliente realmente não se importava tanto com guacamole. Mas se for necessária uma tarifa de 20% para fazê-lo mudar, isso é um sinal claro de que ficar sem o produto real é uma dificuldade séria.
E é por isso que tarifas mais altas geram uma quantidade muito maior de dor. Essas forças não são independentes umas das outras. Elas interagem. Ou em matemática, elas se multiplicam, o que significa que os custos aumentam ao quadrado da taxa de tarifa. Isso leva a uma aritmética bastante dolorosa.
A taxa média de tarifa era de cerca de 1,5% pouco antes da eleição de Trump em 2016. Ele posteriormente aumentou tarifas sobre aço, alumínio, máquinas de lavar, painéis solares e muitos produtos da China, mas deixou grande parte do restante da economia intocada. No total, em 2019 ele praticamente dobrou a taxa de tarifa, para cerca de 3% —e assim efetivamente quadruplicou qualquer dor que as tarifas de 2016 estavam causando. (Sim, duas vezes dois é quatro).
Joe Biden manteve algumas dessas tarifas, mas a última rodada de Trump eleva a taxa americana atual para cerca de 15 vezes o nível de 2016, e assim, ao quadrado, é 225 vezes mais dolorosa. Isso é mais de 50 vezes maior do que o custo do aumento de tarifas do primeiro mandato do Sr. Trump.
Talvez os eleitores tenham votado em Trump com boas lembranças dos bons tempos econômicos. Mas a realidade de seu primeiro mandato é que houve muito mais conversa sobre tarifas do que ação. Elas foram pouco mais do que um solavanco na estrada. Desta vez, são uma montanha.
E assim, o impacto será mais como uma colisão do que o solavanco confortável da última vez.