Ancestral de iguana flutuou por 8.000 quilômetros da América do Norte até Fiji

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Conhecidas por sua cauda longa e crista de escamas nas costas, as iguanas parecem ter alcançado o posto de maiores deslocadores não voadores e não humanos entre os vertebrados: mais de 8.000 quilômetros flutuando no oceano Pacífico, da América do Norte até Fiji, possivelmente em cima de um pedaço de pau ou de uma vegetação.

O ato surpreendente, que se estima que tenha ocorrido entre 34 e 30 milhões de anos atrás com um ancestral da iguana do deserto da América do Norte (Dipsosaurus dorsalis), levou à evolução de um conjunto de espécies insulares, incluindo a iguana-de-crista-de-Fiji (Brachylophus vitiensis), uma das quatro espécies do grupo a habitar Fiji, no meio do Pacífico.

A longuíssima viagem foi possível porque esses animais conseguem ficar em um estado de hibernação, em que não precisam se alimentar, e por aguentarem o calor e a exposição solar por um longo período.

Essa é a mais longa dispersão transoceânica documentada em vertebrados terrestres, segundo estudo publicado no último dia 17 na revista especializada PNAS (Proceedings of the National Academy of Sciences). O achado pode ajudar a compreender aspectos biogeográficos importantes da diversificação do grupo.

Tudo começou a partir de um projeto maior com o objetivo de estudar as relações evolutivas dos lagartos do grupo Iguania, do qual fazem parte as iguanas e camaleões.

Simon Scarpetta, professor assistente da Universidade de São Francisco e primeiro autor do estudo, conduzia sua pesquisa de pós-doutorado na Universidade da Califórnia, em Berkeley, quando se deparou com uma relação próxima das iguanas do deserto (gênero Dipsosaurus) com a espécie de Fiji (gênero Brachylophus).

"Após essa descoberta inicial, eu quis investigar esse quebra-cabeça biogeográfico", disse o docente à Folha, fazendo referência ao fato de as duas espécies estarem mais de 8.000 quilômetros distantes entre si.

Ele se juntou a Jim McGuire, seu então orientador no pós-doutorado em Berkeley, e Robert Fisher, um entusiasta do grupo e pesquisador do Serviço Geológico dos Estados Unidos. O trio decidiu seguir com um projeto à parte, que recebeu apoio do órgão federal de ciência, o NSF, só para desvendar esse nó.

Os cientistas analisaram mais de 4.000 áreas do genoma de representantes dos 14 gêneros de iguanas existentes no mundo, incluindo 150 genes-alvo presentes apenas no clado Pleurodonta (do qual fazem parte as iguanas).

"Expandimos o conjunto de dados para esse estudo, e esses dados foram centrais para encontrar uma evidência sólida a favor da relação de parentesco entre Brachylophus e Dipsosaurus", afirma Scarpetta.

O próximo passo era tentar elucidar o tempo de divergência (separação) entre as espécies, chegando a uma idade provável do ancestral viajante a partir de material fóssil ancestral de iguanas na América do Norte. Isso porque há diversos registros de fósseis considerados como iguanas primitivas nos EUA e no México, mas não há registro para o sudeste asiático ou para Fiji e Tonga, o que indica que a espécie ancestral aportou nas ilhas oceânicas em algum momento após o surgimento do grupo no continente americano.

Novamente, os dados corroboraram a hipótese de origem a partir de um ancestral dos lagartos pelo oceano Pacífico até a região insular.

"Uma hipótese antiga era que ancestrais de iguanas estavam presentes no hemisfério oriental, e algumas das dispersões alternativas incluem uma rota terrestre via estreito de Bering [passagem que ligava a América do Norte ao norte da Ásia], ou uma rota sul através da América do Sul e Austrália e/ou Antártida, mas não há nenhuma evidência que favoreça essas hipóteses", diz.

Segundo Scarpetta, os dados genéticos, a idade e os modelos biogeográficos propostos reforçam uma origem comum de Brachylophus e Dipsosaurus a partir de um ancestral entre 34 e 30 milhões de anos atrás, próximo ou logo após a origem do arquipélago.

"A data encontrada [final do Paleógeno] para a divergência seria tarde demais para uma dispersão pelo hemisfério sul perto do polo, porque as camadas de gelo permanentes da Antártida se desenvolveram mais ou menos na mesma época, enquanto a passagem pelo norte teria sido dificultada no mesmo período, pois o último ciclo quente à época ocorreu antes de 30-34 milhões de anos."

De acordo com o pesquisador, as iguanas possuem várias características que favorecem a dispersão, como resistência ao calor e à fome, e os pesquisadores já conhecem outros exemplos de dispersão oceânica do grupo, como no caso das iguanas terrestres de Galápagos (Conolophus subcristatus), cujo ancestral comum teria viajado cerca de 600 quilômetros.

"Nossa pesquisa mostra o que é possível na biogeografia de vertebrados não voadores e não humanos, isto é, dispersões pelos oceanos por pelo menos 8.000 quilômetros", diz Scarpetta.

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