Como Milei fez a Argentina merecer um resgate do FMI

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Javier Milei mal consegue conter sua empolgação. Desde dezembro, quando o último acordo do FMI (Fundo Monetário Internacional) com a Argentina expirou, o presidente do país tem buscado um novo resgate. De fato, seus esforços incluem uma ordem executiva para eliminar a necessidade de aprovação do Congresso para o acordo.

Em 30 de março, o ministro das finanças da Argentina disse que o governo esperava receber 40% do dinheiro, o que pode chegar a US$ 20 bilhões (R$ 116,6 bilhões), antecipadamente. Três dias depois, Milei embarcou em um avião para Mar-a-Lago para se encontrar com Donald Trump e, ele esperava, ajudar a fechar o acordo.

Para o FMI, o fundo de emergência do mundo, esta é uma situação estranha. Os mutuários tendem a chegar furiosos, desanimados e desesperados, e nenhum mais do que a Argentina.

Desde seu primeiro resgate em 1958, o país se tornou o cliente mais difícil do fundo, acumulando dívidas intermináveis, que agora somam US$ 41 bilhões (R$ 239 bilhões, ou 28% de todos os empréstimos do FMI). O primeiro acordo de Milei será o 23º da história da Argentina. Enquanto o fundo contempla quanto dinheiro entregar, a questão é se o vigor dele pode superar as tendências gastadoras do país.

O resgate mais recente da Argentina, acordado em 2022, exemplifica essas tendências. Foi um resgate de outro resgate, que deu errado depois que os ministros não conseguiram impedir a fuga de investidores. A maior parte do dinheiro foi usada para pagar empréstimos anteriores.

As metas estabelecidas pelo fundo para apertar o cinto, liberalizar a regulamentação e remover controles de capital tornaram-se cada vez mais rígidas com o passar do tempo, mas a Argentina não conseguiu reduzir seu déficit, ao mesmo tempo em que queimava reservas estrangeiras. Os políticos se mostraram relutantes em arriscar reformas dolorosas. O fundo pouco pôde fazer para mudar suas mentes: havia investido muito dinheiro na Argentina para que qualquer ameaça de abandono fosse convincente.

Milei quer trabalhar com o fundo tanto porque a Argentina precisa de dinheiro, quanto porque as reformas que ele busca têm muito em comum com as suas próprias. Ele cortou os gastos em 5% do PIB (Produto Interno Bruto) e reduziu a burocracia desde que assumiu o cargo no final de 2023. Ao fazer isso, transformou um déficit fiscal em superávit, enquanto afundava o crescimento econômico. No entanto, como ele também domou a inflação, suas taxas de aprovação permanecem sólidas.

A necessidade econômica é a razão mais convincente para o FMI apoiar a Argentina. Milei desvalorizou repetidamente o peso, que está atrelado ao dólar, mas não rápido o suficiente para impedir que a inflação elevasse a taxa de câmbio real a níveis perigosos, pressionando as escassas reservas da Argentina. Além disso, cada vez que Milei desvaloriza, ele corre o risco de fuga de capitais, o que drena ainda mais as reservas e pode desencadear inflação.

Folha Mercado

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Para reforçar as reservas cambiais da Argentina, ele precisa liberalizar a taxa de câmbio, o que só é possível com muitos dólares para tranquilizar os investidores sobre a capacidade do país de honrar sua dívida e pagar as contas de importação. É por isso que Milei está pressionando por uma quantia substancial antecipada.

Uma crise cambial deixaria a Argentina incapaz de pagar sua dívida —um pesadelo para o FMI. Cada vez que o fundo desembolsa mais dinheiro, aprofunda tanto a dependência do país de doações quanto o risco para suas próprias finanças. Muito melhor dar poder de fogo a Milei agora, já que poucos líderes tentaram mais retirar a Argentina dos livros do FMI. Como Kristalina Georgieva, chefe do FMI, admitiu, Milei "mereceu".

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