Em uma manhã de outubro do ano passado, na cidade americana de Baltimore, Alexander Laurenson, 26, entrou em uma sala branca para ter seu braço atacado por mosquitos.
Conforme havia sido solicitado, ele não tomou banho na noite anterior para tornar sua pele mais atraente para os insetos, atraídos pelo odor corporal. Os mosquitos, por sua vez, estavam infectados com malária.
Laurenson fazia parte de um estudo na Escola de Medicina da Universidade de Maryland, nos Estados Unidos, para testar um novo anticorpo monoclonal projetado para prevenir a transmissão da malária. Ele concordou em participar de um ensaio no qual voluntários são intencionalmente infectados com um patógeno.
A sala foi isolada para evitar a fuga dos mosquitos. Um por um, mais de 20 voluntários entraram para servir como presas.
Experimentos como este têm sustentado há muito tempo o desenvolvimento de vacinas. Hoje em dia, eles são realizados só para doenças que já têm medicamentos de ação rápida para garantir a recuperação dos voluntários. Contudo, devido ao risco envolvido e ao custo significativo, são raros e, em alguns casos, controversos.
"Muitas pessoas dizem: 'Isso não viola o juramento hipocrático?' ou 'Como um médico pode fazer isso?'" disse Seema K. Shah, bioeticista do Hospital Infantil Lurie e professora da Universidade Northwestern em Illinois que estuda esse tipo de experimento.
Esses testes ganharam força desde a pandemia de Covid-19. O financiamento para eles tem sido abundante. Países como Índia, Canadá e Austrália estão começando a desenvolver a capacidade para conduzi-los. Alguns pesquisadores têm considerado mais fácil recrutar voluntários, que estão dispostos a tremer, suar, vomitar e sentir dor, tudo em nome de ajudar os outros (e ganhar um pouco de dinheiro).
"Acho que seria irracional valorizar minha conveniência mais do que a vida de outras pessoas", afirmou Oscar Delaney, 22, assistente de pesquisa em inteligência artificial em Oxford, Inglaterra, que participou de um desses experimentos no ano passado.
Os pesquisadores descobriram que esses testes podem ser usados para observar não apenas as respostas imunes mas também a transmissão e a infecção. E, pelos padrões da pesquisa de doenças, eles são ágeis; todo o processo pode levar alguns meses. Isso contrasta com os anos que geralmente são necessários para realizar um teste tradicional que exige que milhares de pessoas sejam naturalmente infectadas por uma doença.
Quase todos os voluntários no ensaio da malária receberam doses variadas do anticorpo monoclonal. Mas alguns lidariam com os efeitos da malária e depois receberiam um medicamento. A pesquisadora principal, Kirsten E. Lyke, disse a todos os voluntários que levaria pelo menos uma semana para os sintomas se desenvolverem. Se o anticorpo monoclonal funcionasse, nenhum sintoma apareceria para o grupo que o recebeu.
Uma semana depois, Laurenson se sentiu bem. Mas então, 11 dias depois, uma dor de cabeça começou. Assim como a náusea. Depois, ele vomitou.
No século 20, pesquisadores da Alemanha nazista e do Japão imperial infectaram prisioneiros com antraz, clamídia e cólera. O Serviço de Saúde Pública dos EUA por décadas negou secretamente tratamento a homens negros no Alabama que tinham uma infecção anterior de sífilis para que pesquisadores pudessem estudar a doença.
O campo da bioética cresceu, em grande parte, a partir desse passado. Mas já em 1900, o médico Walter Reed, do Exército americano, liderou uma iniciativa melhor: ele forneceu aos participantes de um estudo sobre febre amarela em Cuba dinheiro e contratos que claramente indicavam os riscos do teste. Com o tempo, esse modelo se tornou padrão. Obter consentimento tornou-se primordial, assim como confirmar a disponibilidade de terapias para tratar os voluntários.
Aos poucos, esses experimentos começaram a ter uma aceitação mais generalizada, segundo Joshua Osowicki, médico pediatra especializado em doenças infecciosas no Instituto de Pesquisa Infantil Murdoch em Melbourne, Austrália. Embora os voluntários ainda ficassem doentes, eles nunca foram levados a ficar perto da morte ou de sofrer danos graves.
A aceitação científica geral foi testada durante a pandemia. Em 2020, enquanto o mundo corria para encontrar uma vacina contra o coronavírus, cientistas começaram a pedir uma abordagem mais ampla que, segundo eles, deveria incluir os testes com infecção intencional de voluntários. Em junho daquele ano, três cientistas argumentaram no Journal of Infectious Diseases que isso poderia ajudar a acelerar o desenvolvimento de uma vacina.
Um debate eclodiu na comunidade de saúde pública. Em abril de 2020, 35 membros do Congresso dos EUA escreveram uma carta pedindo a reguladores que permitissem esses testes para vacinas contra a Covid. Três meses depois, 177 cientistas, incluindo 15 laureados com o Prêmio Nobel, juntaram-se ao apelo.
Críticos, por outro lado, argumentaram que os riscos de infectar voluntários com um vírus mal compreendido eram muito grandes. O NIH (Institutos Nacionais de Saúde), o FDA (Administração de Alimentos e Medicamentos) e o CDC (Centros de Controle e Prevenção de Doenças) se recusaram a permitir. Pelo menos um teste, na Holanda, foi cancelado devido ao risco.
Ainda assim, em vez de enterrar esse tipo de teste, a pandemia o "revitalizou", segundo Christopher Chiu, imunologista do Imperial College London. Em 2021, após meses de deliberação, o primeiro teste do tipo para Covid-19 no mundo começou no Imperial College London —um dos dois que ocorreram em 2021 e 2022 para a doença— e o interesse cresceu a partir daí.
Em 2020, enquanto estava trancado em seu apartamento no Brooklyn, o ex-advogado Joshua Morrison encontrou um rascunho inicial do artigo do Journal of Infectious Diseases argumentando a favor dos testes com voluntários que se fossem intencionalmente infectados com Covid-19.
Naquele mês de março, Morrison e mais duas pessoas fundaram um grupo de defesa em Washington, D.C., como um local para organizar potenciais voluntários para esses experimentos com Covid-19. Eles o chamaram de 1Day Sooner. Em questão de meses, a organização tinha dezenas de milhares de inscrições.
O 1Day Sooner passou a promover testes para doenças como norovírus, hepatite C e shigella, uma bactéria que pode causar disenteria. Sua mensagem inspirou mais pessoas, incluindo Delaney, o assistente de pesquisa na Inglaterra. Em outubro de 2024, ele iniciou seu primeiro teste, também sobre malária.
Nos últimos anos, mais dinheiro tem sido disponibilizado para construir instalações que possam conter com sucesso patógenos perigosos. A Universidade de Melbourne recentemente abriu a primeira delas dedicada a esses testes no Hemisfério Sul. Em Antuérpia, Bélgica, uma instalação com 30 leitos foi concluída como parte de um projeto de US$ 57 milhões para desenvolver a próxima geração de vacinas contra a Covid-19 por meio de pesquisas com testes desse tipo.
O potencial desses testes não passa despercebido por Laurenson.
Mas 11 dias depois de ser picado pelos mosquitos, ele estava mais concentrado na náusea e na dor de cabeça que estava sentindo. Antes de sua infecção, ele havia recebido a dosagem mais alta do anticorpo monoclonal usado no teste. Será que o produto experimental falhou?
No laboratório de Lyke, um teste deu negativo para malária. Laurenson simplesmente teve um problema estomacal. Pelo menos para ele, o anticorpo havia funcionado.