Golfinhos assobiam. Baleias cantam. Peixes zumbem. Mas na conversa do mar, faltava uma voz —até agora.
Há muito tempo, tubarões têm sido vistos como silenciosos. Mas cientistas da Universidade de Auckland, na Nova Zelândia, recentemente gravaram um cação-pintado-de-estuário (Mustelus lenticulatus) emitindo um som agudo de clique, provavelmente ao bater os dentes, de acordo com estudo publicado na revista Royal Society Open Science no último dia 26. Segundo os autores do trabalho, é a primeira vez que um tubarão foi gravado fazendo barulho ativamente.
A pesquisadora principal, Carolin Nieder, ouviu o som pela primeira vez quando pesquisava as habilidades auditivas dos tubarões. Enquanto ela manuseava um tubarão, o animal emitiu um som de clique, semelhante ao de uma faísca elétrica.
O barulho veio de um cação-pintado-de-estuário, um tubarão comum nas águas ao redor da Nova Zelândia que cresce até um metro e meio e se alimenta principalmente de crustáceos. Ele, por sua vez, é predado por espécies de tubarões maiores —e por neozelandeses, que o consomem com batatas fritas.
Nieder ficou surpresa quando ouviu o barulho.
Outros animais marinhos têm mecanismos para fazer barulho. Os peixes, por exemplo, contam com uma bexiga natatória, um saco cheio de gás que é usado para flutuabilidade, mas também pode ser usado como um tipo de tambor. Muitos peixes têm um músculo que pode vibrar a bexiga natatória de forma semelhante às cordas vocais humanas, gerando sons.
Mas os tubarões "eram considerados silenciosos, incapazes de criar ativamente sons", segundo Nieder.
Para o estudo, ela e seus coautores observaram o comportamento de dez indivíduos da espécie Mustelus lenticulatus alojados em tanques equipados com microfones subaquáticos. Eles descobriram que todos os dez tubarões começariam a fazer o barulho de clique quando estavam sendo movidos entre tanques ou segurados gentilmente.
Em média, eles clicavam nove vezes em um intervalo de 20 segundos, e os pesquisadores trabalham com a hipótese de que faziam o som ao bater os dentes.
Eles não faziam barulho quando estavam se alimentando ou nadando, levando os cientistas a acreditar que o clique era algo mais provável quando estavam estressados ou assustados, em vez de ser um meio de comunicação entre eles.
"Acho mais provável que eles façam esses ruídos quando são atacados", disse Nieder, acrescentando que muitos outros peixes batem os dentes ou mandíbulas na tentativa de dissuadir ou distrair predadores.
Não estava claro se os tubarões conseguiam ouvir os cliques; se faziam o som na natureza ou apenas em cativeiro; e se o faziam intencionalmente ou se era um efeito colateral de sua resposta ao susto, de acordo com Nieder.
Christine Erbe, diretora do Centro de Ciências e Tecnologia Marinha da Universidade Curtin, na Austrália, disse que o estudo ampliou um campo crescente de pesquisa sobre como os animais marinhos produzem e ouvem sons.
"Uma vez que começamos a procurar, encontramos cada vez mais espécies que usam som", disse ela. Por isso, a seu ver, não foi surpreendente descobrir que os tubarões podem fazer barulho.
No entanto, Erbe acrescentou: "Acho significativo no sentido de que subestimamos totalmente a comunicação entre os animais e suas habilidades de percepção ambiental, e, portanto, também como podemos impactá-los com o ruído."