Opinião - Reinaldo José Lopes: O caçador de chifres tranquiliza os homens

há 13 horas 2

Recordo que fiquei bastante intrigado dois anos atrás, quando fiz para esta Folha uma reportagem sobre o DNA do gênio musical Ludwig van Beethoven (1770-1827), finalmente "soletrado" pelos cientistas graças a mechas de cabelo dele que foram preservadas. Não entendi muito bem o aparente desinteresse dos colegas gringos por um chifre histórico.

Acontece que uma das descobertas surpreendentes do estudo tinha a ver com o cromossomo Y, presente em quase todos os indivíduos biologicamente machos da nossa espécie. Os descendentes do sexo masculino de um mesmo homem deveriam carregar versões praticamente idênticas desse pedaço do material genético, que só é passado de pai para filho.

Só que o cromossomo Y do célebre Ludwig não bate, nem de longe, com o dos homens vivos hoje com o sobrenome Van Beethoven, que descendem, em tese, do mesmo ancestral que ele. Conclusão inescapável: alguma mulher das gerações anteriores a ele teve um filho com alguém que não era o marido.

Curiosamente, nenhuma das reportagens da imprensa de língua inglesa sobre a pesquisa destacou esse fato nos títulos (ao contrário da minha). Será que eles acharam que seria machista tocar no assunto? Será que brasileiros são culturalmente mais fofoqueiros que a média?

Não sei dizer. Mas só me dei conta recentemente de que um dos coautores do estudo talvez mereça o título de maior caçador de chifres da história da ciência.

Refiro-me a Maarten Larmuseau, geneticista da Universidade Católica de Leuven, na Bélgica, retratado num divertidíssimo perfil do periódico acadêmico Science. Ele se dedicou, entre outras coisas, a investigar a verdade por trás de uma estatística chutada que ganhou vida própria nas últimas décadas: a de que 10% dos filhos de casais devidamente casados seriam, na verdade, filhos de outro homem sem que o pai "oficial" soubesse.

Ninguém sabe muito bem como esse número surgiu. Larmuseau, porém, combinando análises de DNA com um trabalho de detetive genealógico (mapeando famílias ao longo do tempo usando registros de batismo centenários, por exemplo), mostrou que 10% é um baita exagero. Beethoven era exceção: ao menos em famílias europeias dos últimos 500 anos, a média de casos fica em apenas 1%.

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Mas a coisa é mais interessante do que esse número isolado, claro. Ao menos do ponto de vista reprodutivo, parece que a monogamia funciona quase sempre (para os homens). Mas outros estudos, tanto de Larmuseau quanto de outros pesquisadores, indicam que a proporção não está inscrita em pedra.

Segundo os cálculos dele, no século 19, o número salta para 6% em certas áreas dos Países Baixos (sem trocadilho, juro) em que houve um processo rápido de urbanização e industrialização. O novo proletariado urbano, arrancado de suas raízes rurais e com condições de vida precária, também enfrentou mudanças nos padrões de sexualidade e geração de filhos, ao que parece.

Já entre os himba, um povo de pastores nômades da Namíbia, outro estudo mostrou que o número chega a quase 50%. Na cultura deles, não há estigma quanto à "paternidade externa" –os homens sabem quando suas mulheres têm filhos com outros, mas ainda assim são os pais oficiais das crianças.
Biologia é importante, mas não é tudo. Pai é quem cria, afinal de contas.

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