A gestão de Donald Trump iniciou um expurgo de contratados de programas de diversidade em todas as agências do governo americano, dentre elas a Nasa. A medida não se limita a encerrar programas, mas se prepara para demitir quem esteve neles –e ameaça quem não entregar colegas que podem ter tido sua relação com essas iniciativas "disfarçada".
O recado chegou via email, no último dia 22 (quarta-feira), a todos os funcionários da Nasa, assinado por Janet Petro, ex-diretora do KSC (Centro Espacial Kennedy), indicada pela Casa Branca para assumir interinamente como administradora da agência. "Estamos dando passos para fechar todos os escritórios Deia e encerrar todos os contratos relacionados a Deia em acordo com as ordens executivas do presidente Trump", diz a missiva.
Deia é a sigla em inglês para diversidade, equidade, inclusão e acessibilidade. É difícil imaginar que tipo de ser humano pode ser contra essas coisas. Ou melhor, é fácil, mas mais sobre isso adiante.
"Esses programas dividiram americanos por raça, desperdiçaram dólares dos contribuintes e resultaram em vergonhosa discriminação. Estamos cientes dos esforços de alguns no governo em disfarçar esses programas ao usar linguagem codificada ou imprecisa. Se você está ciente de uma mudança em qualquer descrição de contrato ou de função de pessoal desde 5 de novembro de 2024 para obscurecer a conexão entre o contrato e Deia ou ideologias similares, por favor reporte todos os fatos e circunstâncias para [email protected] nos próximos dez dias."
E a cereja. "Não haverá consequências adversas pelo reporte em tempo adequado dessa informação. Entretanto, fracasso em reportar essa informação dentro de 10 dias pode resultar em consequências adversas."
Ato contínuo, o escritório de diversidade da Nasa foi fechado, os sites ligados a esses programas foram tirados do ar e os funcionários, colocados em licença.
As ações e o discurso são consistentes com um memorando enviado no dia seguinte (23) por Charles Ezell, diretor interino do OPM (Escritório de Gerenciamento de Pessoal) do governo americano. Despachado a todas as agências governamentais, ele exige delas que forneçam uma lista de escritórios e empregados Deia, contratos relacionados, e um plano para exonerar os funcionários até o fim do mês.
Colunas e Blogs
Receba no seu email uma seleção de colunas e blogs da Folha
Especialmente angustiante é ver Petro, da Nasa, assinar essa comunicação. Em novembro de 2021, ela elogiou os esforços de diversidade, destacando sua importância para a Nasa. "Nosso compromisso com diversidade, equidade, inclusão e acessibilidade tem sido essencial para o sucesso da missão. A equipe de liderança inteira da Nasa defende esse compromisso", disse. Ela também destacou que, no começo de sua carreira na Nasa e no Exército, muitas vezes era a única mulher em reuniões, e que tem um irmão com necessidades especiais. "Sou, portanto, profundamente comprometida a promover oportunidades para todos." Isso em 2021. Corta para 2025.
O tom persecutório e ameaçador se assemelha ao que se viu no macartismo, do final da década de 1940, em que houve perseguição a comunistas. Era horrível o suficiente, em que pese a paranoia da Guerra Fria. Mas o expurgo sistemático de funcionários, apenas por seu gênero ou etnia, a essa altura do século 21 se assemelha mais com o que os nazistas fizeram aos judeus em instituições públicas, no começo dos anos 1930.
Aí volto à questão: quem pode ser contra diversidade, equidade, inclusão e acessibilidade? A história ensina. Mas só não repete os erros do passado quem está disposto a aprender com eles.
Esta coluna é publicada às segundas-feiras na versão impressa, em Ciência.
Siga o Mensageiro Sideral no Facebook, Twitter, Instagram e YouTube