Rover da Nasa encontra maiores moléculas orgânicas já identificadas em Marte

há 23 horas 1

O veículo-robô (rover) Curiosity, da Nasa, detectou as maiores moléculas orgânicas (contendo carbono) já encontradas no planeta vermelho. A descoberta é um dos achados mais significativos na busca por evidências de vida passada em Marte. Isso se deve ao fato de que, pelo menos na Terra, moléculas de carbono relativamente complexas e de cadeia longa estão envolvidas na biologia. Essas moléculas podem ser, na verdade, fragmentos de ácidos graxos, que são encontrados, por exemplo, nas membranas que envolvem células biológicas.

Os cientistas dizem acreditar que, se alguma vez houve vida em Marte, ela provavelmente era de natureza microbiana. Mas, como micróbios são muito pequenos, é difícil ter certeza sobre qualquer evidência potencial de vida encontrada em Marte. Essas evidências precisam de instrumentos científicos mais poderosos, que são grandes demais para serem instalados em um rover e lançados para Marte.

As moléculas orgânicas encontradas pelo Curiosity consistem em átomos de carbono ligados em longas cadeias, com outros elementos ligados a eles, como hidrogênio e oxigênio. Elas vêm de uma rocha de 3,7 bilhões de anos de idade chamada Cumberland, encontrada pelo rover em um suposto leito de lago seco na cratera Gale. Os cientistas usaram o instrumento Sample Analysis at Mars (Sam) para fazer a descoberta.

Na verdade, os cientistas estavam procurando evidências de aminoácidos, que são os blocos de construção das proteínas e, portanto, os principais componentes da vida como a conhecemos. Mas essa descoberta inesperada é quase tão empolgante quanto a que buscavam. A pesquisa foi publicada recentemente no periódico científico Proceedings of the National Academies of Science (PNAS).

Entre as moléculas detectadas está o decano, que tem dez átomos de carbono e 22 átomos de hidrogênio, e o dodecano, com 12 carbonos e 26 átomos de hidrogênio. Essas moléculas são conhecidas como alcanos, que se enquadram na categoria de compostos químicos conhecidos como hidrocarbonetos.

Este é um momento empolgante na busca por vida em Marte. Em março deste ano, os cientistas apresentaram evidências de padrões em uma rocha diferente coletada em outro local de Marte pelo rover Perseverance. Esses padrões, chamados de "manchas de leopardo" e "sementes de papoula", podem ter sido produzidos pela ação de vida microbiana em um passado distante no planeta vermelho. As descobertas foram apresentadas em uma conferência nos Estados Unidos e ainda não foram publicadas em um periódico científico revisado por pares.

A missão Mars Sample Return, uma colaboração entre a Nasa e a Agência Espacial Europeia (ESA), oferece esperança de que amostras de rocha coletadas e armazenadas pelo Perseverance possam ser trazidas à Terra para estudo em laboratórios mais completos.

Os poderosos instrumentos disponíveis nos laboratórios terrestres poderiam finalmente confirmar se há ou não evidências claras de vida passada em Marte. Em 2023, no entanto, um conselho de revisão independente criticou os aumentos no orçamento da missão. Isso levou as agências espaciais a repensar como a missão poderia ser realizada. Atualmente, elas estão estudando duas opções.

Sinais de vida?

A rocha Cumberland foi encontrada em uma região da cratera Gale chamada Yellowknife Bay. Essa área contém formações rochosas que se parecem muito com aquelas formadas quando sedimentos se acumulam no fundo de um lago. Um dos objetivos científicos do Curiosity é examinar a perspectiva de que as condições ambientais passadas em Marte teriam sido adequadas para o desenvolvimento da vida, portanto, um antigo leito de lago é o local perfeito para procurá-las.

Os pesquisadores dizem acreditar que as moléculas de alcano podem ter sido componentes de moléculas de ácidos graxos mais complexas. Na Terra, os ácidos graxos são componentes de gorduras e óleos. Eles são produzidos por meio de atividade biológica em processos que ajudam a formar as membranas celulares, por exemplo. Sugestões da possível presença de ácidos graxos nessa amostra de rocha já existem há vários anos, mas o novo estudo detalha a evidência completa.

Os ácidos graxos são moléculas longas e lineares de hidrocarbonetos com um grupo carboxila (COOH) em uma extremidade e um grupo metila (CH3) na outra, formando uma cadeia de átomos de carbono e hidrogênio.

Uma molécula de gordura consiste em dois componentes principais: glicerol e ácidos graxos. O glicerol é uma molécula de álcool com três átomos de carbono, cinco hidrogênios e três grupos hidroxila (oxigênio e hidrogênio quimicamente ligados, OH). Os ácidos graxos podem ter de 4 a 36 átomos de carbono; entretanto, a maioria deles tem de 12 a 18. As cadeias carbônicas mais longas encontradas na rocha Cumberland têm 12 átomos de comprimento.

Moléculas orgânicas preservadas em rochas marcianas antigas fornecem um registro crítico da habitabilidade passada de Marte e podem ser bioassinaturas químicas (sinais de que a vida já existiu).

A amostra de Cumberland foi analisada pelo instrumento Sam várias vezes, usando diferentes técnicas experimentais, e mostrou evidências de minerais de argila, bem como as primeiras moléculas orgânicas (menores e mais simples) encontradas em Marte, em 2015. Essas moléculas incluíam várias classes de compostos orgânicos clorados e contendo enxofre em rochas sedimentares da cratera Gale, com estruturas químicas de até seis átomos de carbono. A nova descoberta dobra o número de átomos de carbono encontrados em uma única molécula em Marte.

As moléculas de alcano são importantes na busca de bioassinaturas em Marte, mas ainda não está claro como elas se formaram de fato. Elas também podem ser derivadas de mecanismos geológicos ou de outros mecanismos químicos que não envolvem ácidos graxos ou vida. Essas possibilidades são conhecidas como fontes abióticas. No entanto, o fato de as moléculas existirem intactas hoje em amostras que foram expostas a um ambiente hostil por muitos milhões de anos dá aos astrobiólogos (cientistas que estudam a possibilidade de vida além da Terra) a esperança de que evidências de vida antiga ainda possam ser detectadas hoje.

É possível que a amostra contenha moléculas orgânicas de cadeia ainda mais longa. Também é possível que contenha moléculas mais complexas que sejam indicativas de vida, em vez de processos geológicos. Infelizmente, o Sam não é capaz de detectar essas moléculas. Portanto, a próxima etapa é enviar amostras de rocha e o solo marcianos a laboratórios mais capazes na Terra. A missão Mars Sample Return faria isso com as amostras já coletadas pelo rover Perseverance. Tudo o que é necessário agora é o financiamento.

Este texto foi publicado no The Conversation. Clique aqui para ler a versão original

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