Sabe aquele cheiro de fumaça no ar que vem antes da chuva? Para uns, é o sinal de que é hora de recolher a roupa do varal. Para outros, é o momento ideal para preparar o solo, porque a terra úmida será fértil. No mercado financeiro, existe um sinal parecido. Ele não prevê exatamente o que vai acontecer, mas indica que o ambiente mudou e pode demorar.
É o caso do VIX, o famoso "índice do medo", que mede a volatilidade implícita nas opções do S&P500 com vencimento em 30 dias. Hoje, o VIX superou os 40% ao ano, maior patamar desde a pandemia de 2020. Quando o VIX sobe, ele não está dizendo apenas que o dia está nervoso. Ele sinaliza que o mercado enxerga incertezas relevantes à frente e que a oscilação dos preços pode ser grande por um bom tempo.
Mas o que, de fato, representa esse número? O VIX é uma medida de desvio padrão anual da expectativa de oscilação. Os patamares típicos do VIX, que funcionam quase como faixas de risco psicológico do mercado são:
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Abaixo de 15: Mercado calmo, otimismo prevalece.
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Entre 15 e 20: Ambiente "normal", com leves incertezas.
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De 20 a 30: Medo crescente. Pode ser um susto temporário ou prenúncio de estresse.
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Acima de 30: Sinal claro de tensão. Costuma estar associado a choques econômicos, geopolíticos ou incerteza intensa.
Com ele, podemos estimar com 95% de probabilidade a perda máxima esperada que o índice pode apresentar nos próximos 30 dias. Usando a fórmula de ajuste de volatilidade, temos:
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VIX 15%: queda de até 5%
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VIX 20%: queda de até 6,7%
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VIX 25%: queda de até 8,5%
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VIX 40%: queda de até 13,5%
Ou seja, com o VIX atual em 40%, o mercado está dizendo que o S&P500 ainda pode cair significativamente, com 95% de probabilidade. Essa expectativa é extraída dos preços das opções, que refletem o comportamento dos grandes investidores e não uma previsão exata, mas um intervalo plausível de oscilação.
Vale lembrar que a volatilidade também tem comportamento próprio. Ela não aparece isoladamente. Assim como as tempestades não vêm com um único trovão, momentos de alta volatilidade tendem a vir em "blocos". Essa característica é conhecida como "volatility clustering". Quando o VIX ultrapassa o patamar de 30, a literatura mostra que ele costuma demorar mais para voltar a níveis calmos, como 15 ou 20. Sobe rápido, mas desce devagar.
Durante a pandemia de 2020, o VIX foi a quase 85 e levou três meses para voltar abaixo de 30, e mais cinco para cair abaixo de 20. Em 2023, durante o estresse bancário nos EUA, ele chegou a 30, mas caiu rapidamente porque o evento foi contido. Agora, com as incertezas políticas americanas e tarifárias impostas pelo Presidente Trump , a situação parece ter ficado mais nebulosa.
Diante disso, o investidor precisa de cautela. Como diz o velho ditado: cuidado ao tentar pegar uma faca caindo. Decisões precipitadas em meio ao pânico podem gerar prejuízos permanentes. Por outro lado, momentos de estresse também carregam grandes oportunidades para quem tem clareza de objetivos, tolerância a risco e estratégia definida.
O VIX pode até sinalizar o caos, mas, com um plano bem estruturado, você pode atravessar a tempestade com segurança e, quem sabe, colher bons frutos lá na frente.
Michael Viriato é assessor de investimentos e sócio fundador da Casa do Investidor.
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