Susana Vieira é uma lady, nos palcos e na vida real. Com elegância, antes de começar a entrevista, a atriz reclama gentilmente do atraso do repórter, antes de ser corrigida pela equipe —"não, era esse o horário marcado mesmo"— e logo se desculpa pelo mal-entendido. É que ela tinha minutos contados para se maquiar, vestir o figurino e subir ao palco. Faria uma sessão de "Lady", seu novo espetáculo.
Ela leva a peça do Rio de Janeiro para São Paulo nesta quinta-feira, para uma temporada curta no teatro Vivo. A protagonista é ela mesma, Susana, mas num momento fictício e tenso —está prestes a sair de trás das cortinas para encarnar Lady Macbeth, a atormentada personagem de "Macbeth", uma das mais importantes peças da história, escrita por William Shakespeare.
É uma união de presente com passado, dela com a personagem. Há cenas em que Susana fala de forma difícil, numa pronúncia eloquente do vocabulário shakesperiano, mas logo descamba para o palavreado do dia a dia. Num momento, Macbeth discursa sobre poder e sangue, noutro Susana elogia o próprio megahair.
Foi justamente essa mistura que chamou sua atenção. "Sou fã do Shakespeare. Não temos mais aquela riqueza de palavras, o brasileiro anda com a língua portuguesa muito frágil", ela diz. "Como eu tinha parado de fazer novela, pelo menos por um tempo, pensei ‘vamos fazer algo difícil, bota um Shakespeare aí’."
A peça mescla a obra do escritor inglês a trechos da sua biografia "Senhora do Meu Destino". "Texto feito para teatro é rico, difícil de decorar e muito mais prazeroso de apresentar", diz a atriz. "Apesar de eu amar fazer televisão", ela emenda. "Quando trabalho na TV, melhoro como atriz de teatro. A TV é muito rápida, lá é fábrica, meu amor. Isso o teatro não te dá. Mas ele dá seriedade e responsabilidade."
São os dizeres de uma das atrizes que mais trabalhou neste país. Susana tem no currículo ao menos 52 novelas, vários trabalhos no cinema e outros tantos no teatro. Fez mais de 80 personagens, entre elas as emblemáticas Branca Vianna, de "Por Amor", e Maria do Carmo, de "Senhora do Destino", que lhe permitiu encenar uma surra em Renata Sorrah, que interpretava a vilã Nazaré Tedesco.
Ainda que diga que "ninguém vê novela de uns dez anos para cá", Susana é fiel ao gênero. Verá a nova "Vale Tudo" —e guardará suas críticas para si, ela garante. Conta que adorou "Beleza Fatal", primeiro folhetim da plataforma de streaming Max, viral nas redes por causa de seu erotismo e humor. Na internet, noveleiros vêm pedindo que a Globo se inspire na trama e passe a ousar mais.
Num canal pago isso até vai, mas levar isso à TV aberta seria demais, diz Susana. "Sou caretíssima. Você não pode expor duas línguas se metendo na frente de uma criança de cinco anos. Não dá para mostrar pessoas peladas e transando na TV que fica ligada diante da criança e da avó."
Para Susana, não é a alta dose de pudor que fez a audiência das novelas da Globo despencarem, mas a forma como as histórias são contadas. "Se eu fosse diretora, diria várias coisas que não estão agradando o público. Mas não sou. Eles têm a cúpula deles."
E logo corta o assunto. Diz ter orgulho de vestir a camisa da Globo e que seria uma mau-caráter se criticasse a empresa que a fez se tornar quem é hoje. "Eles me ofereceram um contrato vitalício, sabe? Sou grata. Mas se eles acham que vão me pagar por pouco tempo, não vão não. Ainda vou viver muito", diz Susana, dando risada.
A atriz é conhecida por não ter filtros. Nunca escondeu achar ruim a entrada de influenciadores digitais nas novelas, por exemplo, e há tempos reclama de que os elencos estão cada vez mais cheios de novatos. "Renovação se faz em casa, em carro, em objeto. Ser humano não precisa renovar. Você pode acrescentar sem ter de renovar", diz. Sua última novela foi "Terra e Paixão", em 2023, na qual interpretou uma dona de bordel, mas só por poucos capítulos, porque a personagem logo morreu.
De certa forma, Susana fez o caminho inverso daquele que critica. Foi da TV à internet, e deu certo. Com quase 5 milhões de seguidores no Instagram, ela faz sucesso com vídeos engraçados, cheios de tiradas ácidas sobre qualquer assunto. Viralizou especialmente na pandemia, quando comentava o Big Brother Brasil. "Ganhei um público jovem, sou a rainha dos memes, então achei que fazer essa peça era um bom caminho para eu alcançar mais pessoas de todas as idades."
Susana vê na plateia avós, mães e uma garotada que, em suas palavras, às vezes nem sabe quem é Shakespeare. Essa é a magia do teatro, ela diz. Mas falta investimento. Ela exalta a Lei Rouanet, mas lamenta não ter conseguido captar patrocínio para sua peça nova. "Não vou falar que o governo melhorou. A gente está vivo e trabalhando, só isso."
Susana não cita nomes. Ela evita falar de política. Em 2016, vestiu verde e amarelo para pedir o impeachment de Dilma Rousseff e depois disse que não apoiava Jair Bolsonaro, mas ficou arredia ao tema. "Governo não ajuda a arte. Não tem um político que vai ao teatro, então a gente não depende deles. Pode entrar quem quiser lá. Eles não vão estragar o país", ela disse à Folha há dois anos.
Susana se tornou expansiva, engraçada, impaciente e às, vezes, grosseira, segundo ela mesma, por causa de um trauma. Perdeu a mãe aos 31 anos e passou a se sentir solitária, com os filhos em Miami, sem netos ao redor, e solteira. Criou uma casca. "Tive que aprender a abrir portas sozinha. Por isso não tenho rabo preso com ninguém", diz.
Foi com esse senso de independência que procurou o diretor da TV Globo, Amauri Soares, para apresentar uma ideia. Sem convites para novelas, Susana quer investir na carreira de apresentadora. Pensou em um programa de entrevistas com outras atrizes, as mais novas. Quer entender melhor os anseios da juventude.
"Já estava na hora de eu me aposentar, porque brasileiro tem essa mania de parar com 60 anos. Mas imagina se eu tivesse parado com essa idade? O que estaria fazendo nos últimos 20 anos? Estaria louca, puxando meus cabelos. Ou então ia criar pato. Já tive pato, cavalo, já fui fazendeira", diz Susana, antes de se despedir. Estava atrasada. "Já dei muito para você escrever."