Crítica: Virginia Woolf zomba de seus antecessores em sua única peça, 'Freshwater'

há 3 dias 3

Que Virginia Woolf continua a fascinar os leitores contemporâneos é evidente não apenas pela venda de peças de merchandising estampadas com seu rosto, mas pela miríade de publicações revisitadas e antologias reorganizadas de sua obra.

Diante de tantas publicações, esse "leitor comum", como ela diria, pode se perguntar de onde mais se desenterrarão obras de uma autora morta há mais de 80 anos. De fato, Woolf descansava de uma obra escrevendo outra.

A renomada autora do modernismo britânico se dedicou a romper os limites dos gêneros, seja subvertendo a ideia de biografia, em "Orlando", estipulando o poema-peça, em "As Ondas", ou desafiando as normas sociais de sua época.

"Freshwater", sua única peça, mescla realidade e ficção ao se inspirar na vida de sua tia-avó, Julia Margaret Cameron, famosa fotógrafa do século 19. A farsa satírica teve sua primeira versão em um único ato em 1923. Em 1935, Woolf revisitou o texto e o expandiu para três atos, apresentados pela primeira vez durante uma das noites teatrais do grupo Bloomsbury, círculo de artistas e intelectuais ao qual pertencia.

Assim como em Bloomsbury, artistas se reuniam na casa de verão dos Cameron na vila de Freshwater. Na peça, o casal é retratado em um frenesi pré-mudança para a Índia. Enquanto a senhora Cameron tenta capturar imagens supostamente simbólicas com sua câmera, o senhor Cameron, já senil, dispara comentários desconexos para quem quiser ouvir.

Ao lado deles estão Watts, um pintor narcisista, e o poeta Alfred Tennyson, obstinado em terminar de recitar seu extenso poema antes da partida do casal. Juntos, formam a caricatura de um grupo alienado da realidade.

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É pelas conversas estapafúrdias das personagens que Woolf zomba das pretensões artísticas de seus antecessores. Ao satirizar a perspectiva vitoriana de uma arte alheia à vida, a autora problematiza a lógica imperialista e questiona a afetação daquela era, ao mesmo tempo em que apresenta uma crítica implícita ao grupo Bloomsbury, que também eram considerados intelectuais distantes da realidade.

A loucura dos artistas é contraposta pela natureza de Ellen, casada com Watts e farta de servir de musa para suas pinturas. Diferentemente dos outros, ela está mais preocupada em viver do que em criar.

A personagem assume diferentes identidades ao longo da obra e sonha em ser atriz em Londres —nessa multiplicidade, se reflete um tema central na obra de Woolf. a ideia de que não existe uma identidade única, a personalidade é plural e transcende as convenções.

Ironicamente, Woolf ficou marcada pela imagem fixa de uma escritora atormentada e deprimida. E é justamente na reconfiguração de sua imagem —como uma autora que ri, entusiasmada com a vida— que reside a importância desta publicação.

Embora ensaios críticos, como o célebre "Um Quarto Todo Seu", já nos tenham apresentado uma Woolf política, e "Flush: Uma Biografia" revele uma faceta mais leve da autora, a imagem de uma escritora perturbada e introspectiva persiste.

A autora não era alheia ao machismo que cristaliza mulheres sob a máscara de Ofélia, a heroína trágica de Shakespeare. Em "Freshwater", o poeta comenta: "Tem algo bastante satisfatório na morte de uma jovem mulher na flor da idade".

A história parece confirmar. Virginia Woolf não era jovem quando se afogou no rio Ouse, mas a imagem, estampada por todos os lados, continua sendo a de seu olhar melancólico aos 20 anos fotografado por Beresford.

Na peça, Ellen faz um comentário irônico. "Todos dizem quão orgulhosa eu deveria ser. Pensar em ficar exposta no Tate Gallery para todo o sempre —que honra para uma mulher como eu!"

Ao romper com a imagem rígida dessa Woolf etérea pendurada no National Portrait Gallery, desafiamos a aura desumana da autora erguida no pedestal do cânone e nos aproximamos do cerne de sua obra, dedicada a capturar os "momentos de ser" e a "vida em si".

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