Como a lógica de destruição do inimigo muda com novos imperadores do mundo

há 1 mês 12

Freud indicava três características importantes para que uma piada "funcione": um elemento-surpresa, uma falta de sentido aparente (por exemplo, sofisma, paradoxo ou contradição) e um grupo de referência que "entende a piada".

A piada da fundação de Roma

Catão, um senador romano, seguia estes três preceitos de forma muito peculiar em seus discursos, repetindo a expressão: Carthago tem que ser destruída (Carthago Delenda est). O contexto dessa fala são as Guerras Púnicas, do século 2 a.C., entre o Império Romano e a colônia fenícia no norte da África, hoje Tunísia.

Depois de ser derrotados duas vezes, os cartagineses, liderados por Aníbal e conduzindo elefantes entre os Alpes, chegaram às portas de Roma. Curiosamente eles não atacaram.

Este ato aparentemente inexplicável contrasta com César, que, ao cruzar o rio Rubicão com seus exércitos, teria dito: alea jacta est (a sorte está lançada). Foi uma espécie de declaração de fundação do Império Romano que contrariava uma lei explícita da guerra na antiguidade: quando existe uma inferioridade cabal das defesas, o mais forte deve esperar o mais fraco pedir rendição, pelo menos três vezes.

Um Império, assim como o chiste, teria se originado na transgressão de uma lei. Dar voz aos vencidos é recuperar as ruínas, esse era o processo colonizador.

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O contraste é ainda mais perfeito quando seguimos a hipótese de que Aníbal não atacou Roma porque ele confiou em uma lei "tácita". Quem assistiu "Indiana Jones e o Marcador do Futuro"viu Harisson Ford e Arquimedes na batalha de Siracusa (212 a.C.). Diz a lenda, que o imperador Marcelus ordenou que o grande pensador grego fosse poupado, mas quando o soldado romano entrou na sua casa ele teria dito: não atrapalhe meus cálculos! Insolência pela qual pagou com a vida.

Ou seja, os romanos não seguiram a regra moral do respeito à rendição dos mais fracos.

Dar voz e fazer existir

Estive recentemente na Tunísia e pude visitar as ruínas da antiga Carthago ao lado das ruínas romanas. Percebe-se que os cartagineses eram um outro império, que empurrou os berberes locais para o deserto.

No pórtico de Antonino, em Dougga, existe o Fórum onde as disputas legais, políticas e filosóficas eram resolvidas pela palavra. Os templos de Júpiter, Minerva e Juno testemunhavam as disputas ali ainda que presumissem com um língua comum e uma cidadania para poucos.

Faço parte de uma escola de psicanálise que presta homenagem ao dispositivo do fórum. Seríamos então parte do imaginário imperialista e do expansionismo colonizador?

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Ou defendemos o princípio de que palavra e cidadania plena devem ser dadas ao outro, em vez da escravização e do colapso estrutural do império em expansão?

É pela palavra que fazemos o outro existir.

Novas lógicas de destruição

Destruímos sua história, lembramos suas ruínas, acolhemos seus deuses ou demonizamos nossos inimigos. A palavra é força ou fraqueza, contra a des-existência do outro.

Bárbaros, godos e vândalos habitavam as fronteiras do norte; berberes, no sul, antes dos bizantinos dividirem.

Antes dos venezianos se interessarem por este ponto estratégico do Mediterrâneo.

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Antes dos otomanos assumirem o controle de Carthago em meio à expansão do Islã, que adotaria a forma simbólica da lua crescente —que vai de Córdoba, na Espanha, até Istambul.

Antes dos franceses dividirem o norte da África com os italianos.

Antes dos alemães tomarem portos estratégicos da Tunísia na Segunda Guerra Mundial.

Antes dos americanos instalarem sua cabeça de ponte no Oriente Médio.

Antes de Stalin ter sido o primeiro líder mundial a reconhecer o tal território.

O desejo de destruir o inimigo e a volta do império

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É possível que nossa fascinação contemporânea com o Império Romano seja herdeira dos tempos da Guerra Fria e dos tempos da Guerra ao Terror, agora reforçada em escala digital pela ideia de que o Inimigo deve ser Destruído.

Visitei SidiBouzidi, a cidade ao sul de Tunis, com um muçulmano. Ali, Muamad Bouzizi, um verdureiro, teve seu carrinho virado por policiais e foi impedindo de trabalhar. Em protesto, ele sentou-se em frente à prefeitura e ateou fogo a si mesmo. A cena foi filmada e correu a região, dando origem à Primavera Árabe.

Depois disso, 240 partidos diferentes emergiram neste cenário caótico, e radicais moralistas e religiosos tradicionalistas assumiram a confiança da população.

Houve um efeito rebote: o avanço democrático é seguido de uma reação conservadora e uma regressão econômica neoliberal, que faz com que as pessoas sonhem com a volta do Império.

Vemos então três políticas de colonização de nosso desejo político:

1) a nonsense de Catão baseada na ideia de que o inimigo simplesmente deve deixar de existir;

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2) a conversão, pela qual os "pacíficos" serão incorporados ao Império, tornando-se gradualmente cidadãos, enquanto os insubmissos serão escravizados;

3) a rendição ritual, aparentemente seguida por Aníbal, pela qual o sangue pode ser substituído pela palavra, desde que ela seja livre e indeterminada.

A primeira fantasia política é retornar a um tempo onde havia uma ordem no mundo.

Grandes dirigentes, moralmente superiores, estavam no comando e a hierarquia reinava feliz. Estátuas equestres de generais guerreiros, geralmente calvos, celebravam a expansão do Império.

A cultura dos heróis, seus feitos, superpoderes e incríveis habilidades excepcionais, sugere que nosso destino está nas mãos benevolentes ou gananciosas destes 1%.

A salvação só pode depender destes superpoderosos, sejam eles donos de companhias digitais, sejam eles empresa de carros, carbonos ou glicofosfatos.

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A segunda fantasia política coloca Roma como uma civilização para projetamos o universo de corrupção generalizada.

Vemos um colapso econômico e ambiental à nossa frente. Como interpretamos que nada podemos fazer contra a estrutura, recuamos para o gozo máximo de cada um, por cada um. Bacanais, como os descritos por Petrônio em Satiricon. Alma para dentro dos corpos, como ensinaram filósofos estoicos como Sêneca. Revoltas de escravos, como a que Spartakus liderou.

Assim como os romanos, imaginamos que a saída é super desenvolver economicamente o mundo.

Assim como os impérios que nos antecederam, acreditamos no casamento improvável entre a austeridade, como valor moral aplicado à economia, e democracia, como valor econômico aplicado à moral.

Incorporamos assim a crise climática e a sustentabilidade como um problema local, individual e insolúvel, a não ser pela regressão para a fantasia número 1.

A terceira fantasia é aquela que alimenta nossa política d não se contentar apenas com o necessário ou o possível, mas que se fundamenta no impossível e na contingência.

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Neste caso, o sentimento de que caminhamos para um colapso não é mitigado, barganhado contra a escravidão, nem negociado por meio de fantasias narcísicas de que os outros serão eliminados, mas nós sobreviveremos.

Quando todos morrem, não há Inimigos, internos ou externos.

Aqui a resposta não reside no retorno regressivo às ruínas bárbaras, romanas, bizantinas, venezianas, europeias ou qualquer outro mecanismo ventríloquo das vozes originária que virão nos salvar, simplesmente porque as citamos para espantar deuses alheios.

Ela depende da palavra, que é imune à potência da violência e da guerra, como motor até aqui da história, dos vencedores e dos vencidos.

Opinião

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

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