"É chato quando tentam censurar o humor, fica uma coisa muito sem graça", diz Cláudio de Oliveira, de 61 anos, ao lembrar o início de sua carreira, nos final dos anos 1970 —período de forte censura no regime militar. "O tempo era aflorado na política, teve a Carta aos Brasileiros do Largo de São Francisco, a volta dos exilados. Comecei a fazer charges nessa época de efervescência", diz.
A jornada de Oliveira como chargista começou cedo. Com apenas 13 anos já publicava trabalhos na imprensa de Natal, no Rio Grande do Norte, cidade onde nasceu. Em 1977, aos 14, começou a publicar desenhos no jornal O Pasquim.
Criado por nomes como Jaguar, Tarso de Castro, Sérgio Cabral e Ziraldo, o semanário circulou de 1969 a 1991 e foi uma voz importante da imprensa nos anos da ditadura militar no país. O Pasquim se opunha ao regime com humor, linguagem solta e provocativa. "Ele conseguia driblar a censura pelo humor, na sutileza", diz Oliveira.
O cartunista ri ao lembrar uma contradição. "Com 14 anos produzia charges políticas para o jornal, mas não podia ler porque O Pasquim era impróprio para menores de 16 anos."
Oliveira se formou em jornalismo na Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Fez uma especialização em artes gráficas na Escola Superior de Artes Aplicadas de Praga, na então Tchecoslováquia, durante o período da Guerra Fria, no final da década de 1980.
Seu tcheco, inclusive, não é mais o mesmo de quando falava diariamente, mas não o impediu de dar uma amostra aos repórteres das músicas que ouvia durante protestos no fim do regime soviético.
Oliveira tem sua rotina de produção bem definida. Acompanha o noticiário na televisão, lê jornais e tenta fazer uma síntese do que viu. Diz que a charge publicada no jornal é apenas "a ponta do iceberg" do processo criativo.
Ainda sobre sua rotina, Oliveira diz que não lê o jornal sozinho. Está sempre acompanhado de Dante, seu cachorro. Além da companhia, o cão é personagem das charges, em que age como espectador da cena, comentando e fazendo questionamentos sobre o tema retratado.
O companheiro de quatro patas é um dos poucos personagens das charges que não têm grande poder sobre a sociedade. "Os alvos dos cartunistas são aqueles que estão no poder. É o presidente, o governador. Quem está no poder é quem é o alvo da crítica", afirma.
É cartunista do Grupo Folha desde 1993 e sua produção é intensa. Seu material é publicado diariamente, seja na versão impressa ou mesmo em seu blog, o Cláudio Hebdo —nome em homenagem ao semanário humorístico francês Charlie Hebdo, que foi alvo de ataques de terroristas islâmicos há dez anos após a publicação de uma charge satirizando o profeta Maomé. São publicadas nove charges por semana e, a cada quinzena, é publicada uma adicional —somando dez, no total.