Por milhares de anos, Cardea foi conhecida como a deusa romana das portas e transições, uma guardiã dos limiares. Porém, recentemente, ela se juntou às fileiras celestiais de figuras mitológicas como Marte, Vênus e Andrômeda.
Mas Cardea não é um planeta ou uma constelação. Ela é uma quase-lua —um tipo de asteroide que parece estar fazendo uma dança orbital especial ao redor da Terra.
A União Astronômica Internacional, organização de cientistas encarregada de atribuir nomes oficiais a objetos espaciais, selecionou Cardea através de um concurso de nomes que gerou mais de 2.700 inscrições.
O nome vencedor foi submetido por Clayton Chilcutt, 19, um estudante do segundo ano da Universidade da Geórgia, que participou do concurso como parte de uma tarefa de crédito extra em uma aula introdutória de astronomia.
"Eu me deparei com Cardea, e quando você lê a descrição, simplesmente soa celestial", disse Chilcutt, um estudante de contabilidade e finanças, acrescentando que sua "pequena contribuição para a ciência" agora faz parte dos livros de História.
O concurso foi patrocinado em parte pelo Radiolab, popular programa de áudio da WNYC, que apresentou um episódio sobre uma quase-lua perto de Vênus no ano passado, depois que Latif Nasser, um dos apresentadores, se viu olhando para um pôster de astronomia na parede do quarto de seu filho. No pôster, Vênus tinha uma lua, e a lua tinha um nome peculiar: "Zoozve".
Mas após mais pesquisas, Nasser, que tem doutorado em história da ciência pela Universidade de Harvard, descobriu que o ponto no pôster designado como lua não era tecnicamente uma lua, mas também não deixava de ser uma lua, como ele descreve.
Um planeta orbita ao redor de uma estrela, e uma lua orbita ao redor de um planeta. Quase-luas orbitam o Sol, mas estão próximas o suficiente dos planetas para parecerem pequenas luas "fazendo essa dança de bambolê duplo no espaço", disse Nasser.
Nasser também descobriu que o verdadeiro nome de Zoozve não era o amontoado de consoantes, mas simplesmente uma má interpretação do artista do pôster: Zoozve era na verdade 2002-VE. Ainda assim, ele convenceu a união astronômica, que geralmente aprova apenas nomes mitológicos de cultura ou literatura, a dar ao 2002-VE o nome Zoozve.
"Foi totalmente chocante e parecia um pequeno golpe, como um pequeno empurrão para a tolice no Universo", disse Nasser.
Mas Zoozve não estava sozinho. Na verdade, a Terra também tinha um punhado de quase-luas que eram elegíveis para serem nomeadas (apenas uma tinha uma designação não alfanumérica, Kamo’oalewa).
"Ninguém parecia se importar!" disse Nasser. "Nós nos importamos, eu me importo, muitas pessoas se importariam."
Então, em junho, a Radiolab e a união de astrônomos se uniram para encontrar um nome mitológico adequado para 2004 GU9, uma quase-lua descoberta em 2004 pelo projeto LINEAR em Socorro, Novo México. A união astronômica disse que uma de suas maiores aproximações da Terra será em outubro de 2026, quando estará a cerca de 29,7 milhões de km de distância.
O concurso solicitou nomes de mais de 100 países diferentes. Muitos participantes escreveram histórias emocionantes de origens mitológicas, algumas de suas próprias culturas e outras de oceanos distantes, e o que um nome como este significaria para o mundo. A união de astrônomos eliminou duplicatas, nomes já em uso e "claramente não nomes mitológicos onde as pessoas nem tentaram", disse Nasser, como Mooney McMoonface.
Radiolab ajudou a montar um painel estrelado de astrônomos, jornalistas, professores, estudantes e até alguns nerds celebridades, incluindo Bill Nye, Penn Badgley e Celia Rose Gooding. Os jurados reduziram a lista a sete finalistas —dois dos quais vieram do mesmo curso da Universidade da Geórgia— e então liberaram a lista para o público.
Outros finalistas incluíam Bakunawa, um dragão mítico do folclore filipino, que dizia-se emergir do oceano para engolir a Lua; Ehaema, ou "Mãe Crepúsculo" no folclore estoniano; e Tecciztecatl, um deus lunar asteca que uma vez aspirou ser o Sol.
"Realmente traz as pessoas para a ciência. De outra forma teriam dito: 'Não, isso não é para mim'", disse Kelly Blumenthal, diretora de divulgação de astronomia do grupo internacional.
Blumenthal disse que seria "uma pena" deixar os outros finalistas serem desperdiçados, e que o grupo de nomeação da união sugerirá que eles sejam usados no futuro.
Para Nasser, Cardea, o nome vencedor, foi, em última análise, adequado para uma quase-lua: uma antiga guardiã de portas e protetora, um corpo para nos vigiar durante um tempo de tumulto e transição.
Nasser esperava que o concurso de nomes ajudasse as pessoas a "sentirem essa conexão com o que é maior do que todo o caos que está acontecendo no chão agora", disse ele. "O espaço é a perspectiva mais ampla que temos."