Análise: Tarifas de Trump são o mais recente sinal do apetite ao risco de seu segundo mandato

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Apenas dez semanas após o início de sua presidência, o apetite de Donald Trump por risco parece não ter limites.

Ele impôs tarifas globais abrangentes na quarta-feira (2), apesar dos temores de inflação ou, pior, estagflação. No entanto, o homem que se impulsionou à presidência como um negociador duro soou imperturbado no último fim de semana quando perguntado se estava preocupado com a possibilidade de os preços dos carros dispararem.

"Eu não poderia me importar menos", respondeu Trump.

Foi o exemplo mais recente de sua disposição em adotar uma posição maximalista, essencialmente desafiando seus oponentes a enfrentá-lo. Antes do anúncio das tarifas, ele se moveu para desmantelar um sistema de alianças globais que os Estados Unidos passaram 80 anos construindo, embaixada por embaixada, silenciando a Voice of America (emissora financiada pelo governo) e removendo em grande parte o governo de seu braço de fornecimento de alimentos e ajuda médica.

Trump está mais do que disposto a testar os limites de uma democracia de 250 anos para retaliar contra agentes considerados inimigos ou destruir partes do governo federal, mesmo que isso signifique arriscar o sistema de saúde pública ou ignorar o devido processo para imigrantes que vivem legalmente no país.

E, diante da competição diária com a China sobre inteligência artificial, espaço e ciências biológicas, ele está feliz em arriscar cortar o financiamento das maiores universidades de pesquisa dos EUA.

Para os de fora, incluindo os mais de 200 mil estudantes chineses estudando nos EUA, essas instituições públicas e privadas são o diamante cintilante no coração da inovação americana. Para Trump, elas representam o que ele chamou de ideologia "esquerdista radical" que ele está determinado a controlar.

Os assessores do presidente descartam a ideia de que estão abandonando a expertise ou arriscando os incubadores de pesquisa básica, argumentando que os contribuintes não precisam gastar bilhões de dólares em tais empreendimentos. O melhor talento, dizem eles, encontrará seu caminho para o setor privado, ao estilo SpaceX.

Este não era o Donald Trump do primeiro mandato, quando ele cogitava reduzir o déficit federal, mas na prática o deixava disparar, e quando ele tinha planos de erradicar o "Estado profundo", mas não sabia como extingui-lo. Muito mudou desde então, e muitos eleitores e CEOs parecem felizes em vê-lo correr riscos em seu segundo mandato que ele nunca pareceu disposto a correr no primeiro.

Quando perguntados por que o segundo mandato está se desenrolando de forma tão diferente, as pessoas ao redor de Trump —quase todas insistindo que devem falar anonimamente— dizem que as restrições legais, eleitorais e psicológicas que o amarravam no passado não existem mais.

Depois de escapar de uma tentativa de assassinato, ele tomou isso como um sinal de que foi poupado para completar sua visão de como a América deveria ser. "Deus estava me observando", disse ele em fevereiro. Quando a Suprema Corte decidiu que ele era imune a processos por atos oficiais, ele aproveitou o momento para esticar —ou exceder— os poderes da presidência.

Trump nunca mais terá que enfrentar os eleitores, a menos que transforme suas cogitações sobre concorrer a um terceiro mandato inconstitucional em realidade. Ele não está mais cercado por vozes de cautela que o contiveram em 2017, como quando o secretário de Estado Rex Tillerson e o secretário do Tesouro Steven Mnuchin foram contra a criação de incertezas que poderiam afundar os mercados, ou quando o secretário de Defesa Jim Mattis insistiu que ele preservasse o papel central da América na OTAN.

Esses conselheiros foram substituídos por facilitadores e amplificadores, incluindo um número desproporcional de ex-comentaristas da Fox News. Mesmo conselheiros atuais vindos de Wall Street, como o secretário do Tesouro Scott Bessent, que no passado teria recuado ao pensar em desencadear uma guerra comercial, construíram uma justificativa econômica e social em torno dos instintos do presidente.

"O acesso a bens baratos não é a essência do sonho americano", insistiu Bessent no mês passado no Economic Club de Nova York, uma declaração que os compradores do Walmart e da Amazon podem contestar.

Agora Trump apostou que pode acelerar o fim da era da globalização.

Essa é a primeira parte da aposta que Trump fez na quarta. Se o argumento de Bessent estiver certo, Trump pensa que os consumidores americanos estão dispostos a pagar preços mais altos, pelo menos por um tempo, se esse for o custo de forçar os fabricantes a trazer empregos de volta para a América. É uma aposta, essencialmente, de que o protecionismo funciona, e que a única maneira de resolver o problema é aprender com as lições de William McKinley, o presidente que Trump elogiou em seu discurso de posse.

Mas há outras apostas que ele está fazendo. Ele acha que outras nações ao redor do mundo reduzirão tarifas e outras barreiras aos produtos americanos, em vez de enfrentar a dor. Ele argumentou que as tarifas fornecerão uma nova fonte de receita para os EUA, tornando a América menos dependente de impostos sobre a renda.

Em vários momentos nas últimas dez semanas, Trump prometeu que todas essas coisas se tornarão realidade, ignorando as evidências de que os objetivos estão em tensão uns com os outros.

"Ele está extremamente confiante sobre como acha que essas políticas se desenrolarão", disse Matthew P. Goodman, diretor do Greenberg Center for Geoeconomic Studies no Council on Foreign Relations.

"Destacar-se no Rose Garden, com todos aqueles trabalhadores e bandeiras, é colocar tudo sobre ele se algo der errado", acrescentou Goodman, referindo-se ao anúncio das tarifas de Trump na quarta. "E pensar que isso não terá impacto nos mercados, nos preços e no crescimento econômico é realmente esticar a imaginação."

Claro, para Trump, um anúncio, mesmo com o slogan "Dia da Libertação", é muitas vezes o começo do processo.

A secretária de imprensa da Casa Branca, Karoline Leavitt, pareceu convidar pedidos especiais de alívio tarifário na terça, quando disse aos repórteres que o presidente estava "sempre aberto a uma boa negociação". E é exatamente isso que a maioria das autoridades espera, enquanto líderes mundiais praticam suas tacadas de golfe e se dirigem a Mar-a-Lago para apresentar seus argumentos.

Quando isso acontecer, Trump enfrentará uma escolha —ou centenas, talvez milhares delas. Se os mercados reagirem mal às tarifas, ele manteria a capacidade de ajustá-las para cima ou para baixo, como um termostato.

E ele terá essa margem de manobra, porque as tarifas "recíprocas" que ele anunciou para cada país foram calculadas avaliando não apenas as tarifas que esses países colocam sobre os produtos americanos. É um cálculo impreciso, e a ferramenta perfeita ao estilo Trump —personalizável, negociação por negociação.

Folha Mercado

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Como Trump deixou claro em "A arte da negociação", o livro que escreveu em 1987 para moldar sua própria reputação como um negociador astuto, tal alavancagem é fundamental. Mas agora, como presidente, ele detém poderes que só teria em seus sonhos na época em que discutia o preço que pagaria por um resort.

O estilo de seu segundo mandato tem sido marcado pelo uso de todas as formas de poder americano para conseguir o que quer. Ele mostrou que está disposto a fechar agências inteiras, como a Usaid, tanto para alcançar seus objetivos quanto para incutir medo nos trabalhadores federais de que seu departamento poderia ser o próximo a ser desfeito.

Ele está disposto a arriscar uma fratura da OTAN e um colapso da Ucrânia. E se o preço de acabar com déficits comerciais persistentes são possíveis danos profundos às alianças mais antigas e fortes do país, ele não hesitará em ameaçar seus amigos. Enquanto a China pode sofrer mais na matriz de tarifas recíprocas de Trump, os próximos alvos incluem aliados dos EUA ou parceiros muito necessários: Japão, União Europeia, Índia, Coreia do Sul e até mesmo Suíça.

Em cada caso, Trump está declarando que a relação econômica vem em primeiro lugar. Parcerias de segurança ou diplomáticas são um distante segundo ou terceiro, isso se elas forem levadas em conta para alguma coisa.

Ele está apostando que, no final das contas, Xi Jinping e os líderes da UE escolherão não escalar a guerra, temendo o que um presidente que se deleita com a imprevisibilidade pode fazer a seguir.

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