Para os supersticiosos do governo Lula, o Datafolha trouxe um dado alvissareiro, ao menos se comparado à sucessão de más notícias sobre a popularidade presidencial.
Sua aprovação retornou ao patamar de dezembro de 2005, às vésperas da campanha de Lula para o segundo mandato. Na época, como agora, o pessimismo dominava o palácio presidencial, e a oposição, liderada pelo hoje semimorto PSDB, já lambia os beiços.
Eram 28% os que consideravam o governo ótimo ou bom, contra 29% agora. Lula, como sabemos, foi reeleito em 2006.
O intrigante é a diferença de contexto. Há 20 anos, o petista enfrentava seu primeiro grande escândalo, o do mensalão, com consequências óbvias para sua popularidade.
Agora, a aprovação patina em um contexto de desemprego baixo, crescimento econômico, inflação moderada (apesar da alta de alguns alimentos) e ausência de grandes casos de corrupção.
O fato de Lula ter estancado a queda na pesquisa e até ensaiado uma recuperação em segmentos, caso do Nordeste, ainda está por ser bem compreendido.
A grande dúvida é se é apenas um soluço, uma vez que não havia muito como os números piorarem, ou o início de um processo sustentado de recuperação. Para isso, será necessário esperar a divulgação de novas pesquisas.
Otimistas no lulismo buscarão vender a ideia de que finalmente a virada de chave provocada pela chegada de Sidônio Palmeira ao governo começa a surtir efeitos.
O marqueteiro baiano tem se esforçado: mudou a linguagem do presidente nas redes, cortou alguns excessos de Janja, bolou um novo slogan e tem tentado engajar mais os ministros na difusão das ações de governo. Na última quinta-feira (3) promoveu um ato de "prestação de contas" em Brasília que de evento de campanha só não tinha o nome.
Algumas ações que injetam dinheiro diretamente no bolso da população também ganharam prioridade na pauta oficial, como o consignado privado e o projeto de isenção do Imposto de Renda para ganho mensal de até R$ 5.000.
A proposta do IR, em particular, é considerada por aliados de Lula no Congresso uma "boa luta", porque deixa adversários com pouca margem de manobra para se opor a uma medida em tese bastante popular.
Ainda seguindo este roteiro otimista, o fim da escala de trabalho 6x1 poderia ser mais uma pauta de grande apelo junto aos trabalhadores, sobretudo os de aplicativo, uma categoria relativamente nova que tem flertado com a direita.
Tudo isso fica muito bem no papel. Mas o problema com a aprovação de Lula, como já ficou claro, extrapola as ações de seu governo e mesmo algum sentimento de bem-estar social da população.
Há uma evidente fadiga de material na imagem pessoal dele e uma oposição hábil, nas redes e fora delas, em explorar temas comportamentais e econômicos para desgastar o governo.
Além disso, os efeitos políticos da provável prisão de Jair Bolsonaro sobre o eleitorado são uma incógnita, e há quem diga que o evento poderá gerar um sentimento de martirização que turbinaria um eventual candidato da direita.
O que o Datafolha aponta com certeza é que, como a história mostra, Lula ainda tem tempo e meios para reagir. E talvez já esteja reagindo.