Amostras de rocha e de poeira recuperadas pela Nasa do asteroide Bennu exibem alguns dos ingredientes químicos necessários para dar origem à vida. A descoberta consta de duas análises publicadas nesta quarta-feira (29).
As pesquisas fornecem algumas das melhores evidências até o momento de que essas rochas espaciais podem ter semeado a Terra primitiva com os ingredientes que favoreceram o surgimento de organismos vivos.
A espaçonave robótica Osiris-Rex, da agência espacial americana, coletou as amostras do asteroide em 2020 —Bennu é um remanescente rochoso de um corpo celeste maior que se formou perto do início do Sistema Solar, aproximadamente 4,5 bilhões de anos atrás.
As amostras chegaram à Terra em 2023. Estavam dentro de uma cápsula, liberada pela Osiris-Rex e que pousou no deserto de Utah, nos Estados Unidos, com o auxílio de um paraquedas.
Uma das pesquisas, publicada no periódico Nature Astronomy, descobriu que as amostras apresentavam uma mistura diversificada de compostos orgânicos.
A outra, que saiu na revista Nature, constatou que elas continham minerais formados quando uma solução com sais evaporou no corpo que deu origem a Bennu, o tipo de ambiente úmido onde a química orgânica pré-biótica pode ter se desenvolvido.
Nas amostras, estavam presentes 14 dos 20 aminoácidos que são usados para produzir proteínas --moléculas complexas que desempenham papéis indispensáveis na estrutura, função e regulação dos organismos vivos. Também estavam presentes as cinco nucleobases, os componentes genéticos do DNA e RNA em toda a vida na Terra.
No início do Sistema Solar, planetas, incluindo a Terra, e várias luas foram bombardeados por asteroides e outros detritos espaciais que carregavam água e produtos químicos, incluindo compostos orgânicos.
"A detecção desses blocos de construção essenciais da vida nas amostras de Bennu apoia a teoria de que asteroides e seus fragmentos semearam a Terra primitiva com os ingredientes brutos que levaram ao surgimento da vida", disse o astrobiólogo Danny Glavin, do Centro de Voo Espacial Goddard da Nasa em Maryland, autor principal de um dos estudos.
"E o fato de que esses ingredientes químicos da vida podem ser formados no espaço e estão amplamente distribuídos por todo o Sistema Solar aumenta as chances de que a vida possa ter começado além da Terra", acrescentou Glavin.
Os compostos orgânicos têm um ou mais átomos de carbono ligados a outros elementos, geralmente hidrogênio, oxigênio, nitrogênio e enxofre. Toda a vida na Terra é baseada em carbono e é construída a partir de compostos orgânicos, incluindo os aminoácidos usados para criar proteínas e as nucleobases.
A nucleobase é um composto contendo nitrogênio que armazena informações genéticas. O DNA (ácido desoxirribonucleico) e o RNA (ácido ribonucleico) são moléculas fundamentais na biologia celular. O primeiro contém o código genético de um organismo, e o segundo transporta informações genéticas recebidas do DNA, pondo essas informações em prática.
"A origem da vida está relacionada à química orgânica, que teve uma parte preservada nessas rochas de 4,5 bilhões de anos atrás", afirmou Jason Dworkin, astrobiólogo e coautor de um dos estudos. Ele também é cientista do projeto Osiris-Rex.
Todos os compostos orgânicos do Bennu já foram identificados anteriormente em meteoritos que caíram na Terra. Mas havia algumas dúvidas, já que os fragmentos poderiam ter sido contaminados por fontes terrestres. As novas amostras, por sua vez, foram obtidas diretamente de um asteroide e foram mantidas intactas.
"Podemos confiar nesses resultados", disse Glavin.
O corpo principal de Bennu, com cerca de 100 km de diâmetro, parece ter se formado no Sistema Solar externo e foi posteriormente destruído, possivelmente entre 1 e 2 bilhões de anos atrás. Os fragmentos então formaram Bennu e outros asteroides que são, na verdade, aglomerações soltas de material rochoso em vez de objetos sólidos.
No início da história, parte do gelo dentro do corpo principal do asteroide aparentemente derreteu e formou a solução com sais. Os minerais formados na evaporação dela nunca haviam sido detectados em meteoritos que caíram na Terra.
"As soluções com sais fornecem um ambiente no qual elementos e orgânicos simples poderiam ter se combinado para formar orgânicos pré-bióticos mais complexos no caminho para a vida", afirmou o geólogo Tim McCoy, curador de meteoritos no Museu Nacional de História Natural do Instituto Smithsonian, em Washington, e autor principal de um dos estudos.
Os pesquisadores não encontraram evidências de DNA ou RNA reais nas amostras.
"O conjunto de aminoácidos proteicos simples e nucleobases encontrados em Bennu está longe de qualquer coisa que possa ser considerada 'viva', por exemplo, um sistema químico mais complexo auto-sustentável que pode se replicar e evoluir, composto de polímeros muito maiores —proteínas e ácidos nucleicos— que são encontrados nas células", afirmou Glavin.