Só para assinantes
Assine UOLEstreia nesta segunda-feira (31) na TV Globo o remake da novela "Vale Tudo", na faixa das 21 horas. Desde que a releitura do clássico de 1988 foi anunciada, ainda no ano passado, há um debate sobre como será feita a adaptação do Brasil daquela época para o de hoje. Isso porque a trama era focada nos problemas sociais de um país que até mantém muito em comum com o fim dos anos 80, mas em um contexto bem diferente.
E um dos símbolos maiores da mudança pela qual passou o Brasil de 1988 para cá é a indústria automobilística. Ela tinha uma realidade completamente diferente, com apenas quatro grandes marcas globais não apenas produzindo, como também vendendo carros no País. As importações de automóveis estavam proibidas desde abril de 1976, e só voltariam a ser permitidas em maio de 1990, durante o governo de Fernando Collor - em 88, o presidente era José Sarney.
Por isso, no núcleo dos poderosos, nada de modelos de Audi, BMW, Jaguar, Mercedes-Benz, Land Rover ou Volvo. Ferrari, Lamborghini e Aston Martin? Nem pensar! Tentando traduzir fielmente a realidade do Brasil, os ricos guiavam carros mais sofisticados das fabricantes locais, modelos fora de série de marcas brasileiras ou automóveis de luxo dos anos 70.
Já na nova versão, são esperados modelos que traduzam a realidade atual do Brasil, que tem mais de 20 marcas entre importadoras e fabricantes. Além disso, hoje até as de luxo montam automóveis aqui - a exemplo de BMW, JLR (Jaguar Land Rover) e Audi.
Aqui você vai ver quais foram os carros que se destacaram na versão de 1988 de "Vale Tudo". Antes, no entanto, vale contextualizar quem era quem na indústria automobilística nacional da época.
Carros em 1988
O Volkswagen Gol tinha, em 1988, seu segundo ano como líder de vendas do mercado brasileiro, posto que manteria até 2013. Sua primeira conquista, em 1987, marcava o retorno de um carro da marca ao posto de mais emplacado do País, que o Fusca ocupara pela última vez em 1982.
Nos anos seguintes, Monza e Chevette, da Chevrolet, se alternaram na primeira posição, até a chegada do Gol ao posto de número 1. Além das duas marcas já citadas, as duas outras fabricantes eram Fiat e Ford.

A Volkswagen era a líder de vendas e tinha carros mais populares, embora também produzisse alguns mais sofisticados - como o Santana. Mas um dos maiores símbolos do luxo na época era o Opala, da Chevrolet.
O cenário sem carros importados permitiu que diversas marcas nacionais surgissem, produzindo modelos de baixo volume com partes de veículos das grades montadoras. Muitos passaram a ser bastante desejados, e se tornaram símbolo de poder e exclusividade (algo mostrado em "Vale Tudo").
Quanto aos mais vendidos, o Gol somou pouco mais de 104 mil unidades em 1998. Segundo colocado, o Monza teve 70.214 emplacamentos. O Ford Escort fechou o pódio, com 68.789 (veja o top 10 abaixo).
A picape média líder de vendas era a D20, e havia muitas peruas, como Parati e Belina. SUVs e jipes? Nenhum entre os veículos de alto volume. Da lista dos mais emplacados, apenas um produto ainda está entre nós: Volkswagen Saveiro (muitas gerações depois).
Abertura foi fundamental para o avanço
Em 1988, o País teve menos de 800 mil exemplares vendidos, ante os quase 2,2 milhões de automóveis e comerciais leves em 2024. A expansão na indústria é fruto de mudanças profundas no Brasil, que acabara de sair do Regime Militar e, dali em diante, teve transformações em pilares como política, economia, cultura e educação.
A abertura das importações foi o primeiro passo para esse avanço da indústria automotiva. Isso porque, apesar de o período de fechamento ter dado espaço a marcas brasileiras, e de os carros dos anos 80 despertarem ainda muito carinho no público, aquele período provocou grande atraso para os carros do País.
Havia poucas marcas e carros defasados. Com a abertura, vieram diversas outras empresas, inicialmente como importadoras e, depois, como fabricantes. Isso gerou mais competição e um grande avanço tecnológico. Além disso, o zero-km passou a ser acessível a mais consumidores do que naquela época - tanto que o mercado cresceu bastante.
Mas, entre as marcas, três, das quatro daquela época, continuam no topo. A líder é a Fiat, com a Volkswagen na segunda colocação e a Chevrolet na terceira. Porém, atualmente há diversas outras forças importantes, com destaque para Toyota, Hyundai, Honda e Jeep.
Nos dois últimos anos, as chinesas também ganharam destaque. Especialmente a BYD. A Ford deixou de fabricar carros no País, e saiu da lista das dez maiores. Quanto aos segmentos, atualmente SUVs, picapes e hatches compactos têm os volumes mais relevantes. A Strada é a líder de mercado.
"Vale Tudo": domínio da Volkswagen
Há alguns acidentes automotivos em "Vale Tudo". Um deles é o da personagem Solange Duprat, de Lidia Brondi, ao volante de um Fiat 147. Ela sobrevive. O outro é o que tem como consequência a morte de Cecília (Lala Deheinzel). Namorada de Lais (Cristina Prochaska) e irmã do vilão Marco Aurélio (Reginaldo Faria), ela conduzia uma Ford Belina.
Os demais carros importantes são praticamente todos Volkswagen, com exceção de alguns modelos do núcleo dos mais poderosos. O Santana, por exemplo, é o automóvel do protagonista Ivan (Antonio Fagundes) e do cativanente Renato (Adriano Reys), diretor da revista Tomorrow.

Filha de Helena Roitman e Marco Aurélio, Thiago (Fabio Villa Verde) tem o carro que era um dos sonhos de consumo da juventude na época: Gol GTS. Antes do acidente com o Fiat 147, Solange Duprat também dirigia um Gol, mas em outra versão: LS.
Lais, por sua vez, tem uma Volkswagen Quantum, assim como Leila (Cássia Kis). Já Raquel compra uma Parati 1988, para deixar claro que o modelo é zero-km, quando vence na vida. A personagem principal, interpretada por Regina Duarte, começa como guia de turismo em Foz do Iguaçu, passa a vender sanduíche na praia no Rio de Janeiro e, depois de muito luta, se torna uma empresária bem sucedida no ramo da alimentação.
Núcleo dos ricos e poderosos
Os Roitman são sinônimo de poder e riqueza em "Vale Tudo", e seus carros buscam traduzir esse status. Odete (Beatriz Segall), uma das grandes vilãs da trama, aparece muitas vezes a bordo, e até ao volante, de um Mercedes-Benz SLC 450 dos anos 70. Da mesma década é o automóvel de sua irmã, Celina (Nathalia Timberg): um 280 S. Embora fossem modelos mais antigos, eram caríssimos, e sinônimo de poder.
Mas há um alemão dos anos 80 na trama também. Trata-se de um BMW Série 7 de 1986, na versão 735i. Este era o carro de Marco Aurélio, que é presidente da TCA, a empresa de aviação dos Roitman. Como não havia importação, o mais provável é que este modelo pertencesse a uma embaixada - uma das únicas maneiras de um automóvel estrangeiro entrar no Brasil na época.

Um dos primeiros fora de série a aparecer na trama é o jipinho que foi um dos sonhos daquela geração, o Ragge Califórnia do herdeiro da TCA, Afonso (Cássio Gabus Mendes). Já o vilão César (Carlos Alberto Riccelli) se torna amante de Odete e, a partir de então, passa a desfilar em dois dos carros mais legais da novela: Miura X8 e Santa Matilde 4.1 (que usa mecânica de Opala).
A outra grande vilã da trama, Maria de Fatima (Gloria Pires), também tem um fora de série para chamar de seu. Trata-se do SPJ Gloria, exemplar de 1988. Ela passa a rodar com o modelo logo após se casar com Afonso. O carro é um presente do marido.
Agora que você sabe que carros os personagens tinham na versão antiga, que tal ficar de olho no remake e comparar com os automóveis da nova versão?
Os dez carros mais vendidos no Brasil em 1988
1º Volkswagen Gol - 104.111
2º Chevrolet Monza - 70.214
3º Ford Escort - 68.789
4º Chevrolet Chevette - 48.337
5º Fiat Uno - 38.196
6º Volkswagen Voyage - 38.054
7º Fiat Fiorino - 37.123
8º Volkswagen Santana - 32.925
9º Volkswagen Parati - 27.947
10º Ford Del Rëy - 25.658
Opinião
Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.
** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.