Tarifas de Trump e acordo UE-Mercosul não têm nada a ver, diz embaixador da França

há 17 horas 2

Ao contrário do que o governo brasileiro esperançava, o embaixador da França no Brasil, Emmanuel Lenain, disse nesta quinta-feira (3) que as tarifas anunciadas por Donald Trump não vão diminuir as resistências dos franceses com cláusulas do acordo entre a União Europeia e o Mercosul.

Segundo ele, o impacto das tarifas de Trump sobre produtos europeus é maior do que um eventual ganho das empresas da Europa com o acordo com o Mercosul.

"Um acordo permitiria desenvolver um pouco as trocas, mas não estamos de forma alguma nos mesmos níveis de valor", disse em um encontro com jornalistas na casa da cônsul francesa em São Paulo.

"Não tenho os números diante de mim, mas se você olhar para os fluxos comerciais entre a Europa e o Mercosul, e depois olhar para os fluxos entre a Europa e os Estados Unidos, estamos em cadeias de valor que são completamente diferentes. Pelo seu peso econômico e comercial, o que o presidente Trump e os Estados Unidos estão introduzindo na economia mundial é um cataclismo", acrescentou.

Ele respondeu as perguntas em francês, com tradução da intérprete Marly Peres.

Conforme a Folha vem noticiando nos últimos dias, o governo brasileiro e até algumas autoridades europeias vêm defendendo o avanço do acordo entre os dois blocos como contramedida às tarifas de 20% anunciadas por Trump na quarta (2) sobre todos os produtos europeus, para além de 25% sobre aço, alumínio e automóveis.

O bloco europeu exportou U$ 606 bilhões para os EUA em 2024. Com isso, as tarifas americanas devem impactar em no mínimo U$ 121 bilhões nas negociações.

O acordo entre UE e Mercosul, por outro lado, teria potencial de aumentar em 25 bilhões de euros as exportações da União Europeia para o Mercosul até 2035, segundo o bloco europeu. Em 2023, os produtos vendidos da Europa para o bloco sul-americano somaram 55,7 bilhões de euros.

Para o embaixador, o tarifaço não deve aumentar também as pressões de outros países europeus para que os franceses diminuam suas resistências.

Segundo ele, a França deve ser o país menos afetado na Europa pelas tarifas de Trump, com um potencial impacto de 1,5% do PIB francês. Já no caso da Itália esse impacto seria de 3% e no da Alemanha de 4%.

"O que dizemos simplesmente é que o acordo tal como está não nos convém. Porque não inclui cláusulas ambientais suficientes em relação ao que exigem nossas opiniões públicas, e que ainda precisam ser especificadas", disse.

"Faz 20 anos que estamos negociando e é justamente esse o problema. O acordo foi negociado com uma concepção que tem 20 anos e então foi concebido em um momento em que os acordos comerciais eram acordos comerciais nos quais não se levavam em conta as normas ambientais" acrescentou.

O acordo entre os dois blocos foi aprovado no final do ano passado em uma reunião no Uruguai. Mas ainda precisa passar pelo conselho da União Europeia, que reúne os chefes de estado dos 27 países do bloco.

Leia o artigo completo