São Paulo tem 3 obras em homenagem a cientistas em vias públicas, e só 1 deles é brasileiro

há 2 meses 15

Na capital paulista, estão espalhadas 390 obras em ruas, avenidas e praças. São estátuas, bustos e placas em referência, por exemplo, a marcos históricos e personalidades. Mas, entre os personagens homenageados, cientistas são minoria: três, e só um deles é brasileiro.

Na relação do Departamento de Patrimônio Histórico da Secretaria Municipal de Cultura, constam o farmacologista escocês Alexander Fleming (1881-1955) —responsável pela descoberta da penicilina, em 1928—, o americano Thomas Edison (1847-1931), inventor da lâmpada incandescente, e o brasileiro Luiz Pereira Barreto (1840-1923).

Fleming é homenageado com uma cabeça feita de bronze e concreto, de autoria desconhecida. A obra foi colocada em 1969 na praça Alexandre Fleming, na Mooca, zona leste. De acordo com a Secretaria Municipal de Cultura,

Edison, por sua vez, é homenageado com uma placa metálica, criada por João Valente Filho, em 1980. Esta fica na esquina da rua Consolação com a avenida Paulista, na região central.

A estátua em homenagem a Barreto também está localizada na região central, na praça Marechal Deodoro. A obra foi instalada em 1929.

A reportagem também consultou a Secretaria de Cultura, Economia e Indústrias Criativas estadual para verificar se a pasta tinha notícia de mais alguma obra em homenagem a cientistas. A secretaria disse que fez uma pesquisa no banco de dados dos museus estaduais e não localizou.

A cidade de São Paulo é considerada um berço da produção científica nacional. Foi aqui que nasceram, viveram ou estudaram alguns dos maiores nomes de pesquisada no país, como Adolfo Lutz (1855-1940), considerado o pai da medicina tropical, e Vital Brazil (1865-1950), fundador do Instituto Butantan. Este último é homenageado com uma estátua, mas que fica dentro do Parque da Ciência.

Para Helena Nader, presidente da ABC (Academia Brasileira de Ciências), há uma carência de espaços para discutir a ciência com a sociedade. "Eu acho que perde a cidade de São Paulo e perdem os paulistanos. Ter espaços para homenagear e discutir ciência na cidade, que tem mais de 11 milhões de habitantes, é fundamental. E vemos que há uma demanda, porque existem espaços que as pessoas visitam para aprender ciência que dão super certo."

Para ela, a falta de mais estátuas em alusão a cientistas brasileiros em vias públicas reflete uma falta de identidade da própria população com a figura do cientista. "Temos museus voltados para a divulgação científica, como o Catavento, que é adorado por crianças, o Museu Biológico, do Butantan, e até mesmo na Escola Paulista de Medicina temos um museu para falar da saúde indígena, criado na década de 1970, mas são espaços dentro de universidades ou instituições, sejam elas públicas ou privadas. É totalmente diferente do Estado, da gestão municipal, pensando na ciência como parte da cultura popular", disse.

O físico e historiador da ciência Olival Freire Jr., diretor-científico do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico), avalia que a falta de mais estátuas homenageando cientistas brasileiros reflete também como pensa a sociedade sobre a ciência.

"Quem decide quem vai ser homenageado em vias públicas é a Câmara [de Vereadores] e a prefeitura, então é um problema mais profundo de quem são as figuras que merecem ser homenageadas. E não me refiro apenas a cientistas, mas também a gestores que tiveram papel fundamental na pesquisa, como a USP [Universidade de São Paulo] e a própria Fapesp [Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo], que é mérito do governador Carvalho Pinto."

Em sua disciplina sobre história da ciência, Freire cita resultados da série histórica do inquérito sobre percepção pública da ciência, organizado pela SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência), apontando que certos nomes, como César Lattes, vem desaparecendo do imaginário popular. "Isso mostra que a memória sobre a ciência e a própria história precisam ser constantemente reconstituídas e reforçadas, como forma de criar uma cultura, uma identidade mesmo, com a figura do cientista."

A pandemia da Covid, ainda segundo o docente, teria ajudado a valorizar a ciência no país em decorrência da produção das vacinas contra o vírus. "Foi um marco histórico, o papel importante que algumas instituições tiveram, como o Butantan e a Fiocruz, e isso pode ajudar a recuperar a percepção do público sobre ciência."

Nader acrescenta que é papel também das próprias universidades e instituições públicas criarem parcerias com as secretarias de cultura estaduais e municipais. "Está na hora de ter uma conscientização maior sobre o espaço da ciência também na cultura. Nós, pesquisadores, fazemos um trabalho de divulgação, vamos em escolas, trabalhamos exposições, mas precisa de mais."

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