Redução de danos não existe para um alcoólatra

há 3 dias 3

Abstinência alcoólica é uma das coisas mais terríveis pelas quais já passei.

A primeira vez que sofri terrivelmente devido a uma bebedeira foi quando bebi uma garrafa de gim e algumas outras coisas. Naquele dia, eu menti: disse para minha mãe que não tinha posto nenhuma gota de álcool na boca. Mais tarde encontrei minha irmã e ela ficou muito, mas muito brava. Na hora percebeu meus olhos e meu andar e disse: Meu Deus, Alice, é claro que você bebeu.

Esse episódio me custou caro. Decidiram me internar.

Acontece que, quando estávamos indo para a clínica, caiu uma chuva que fez com que nenhum carro andasse e a minha internação ficou para o dia seguinte. Minha mãe e minha irmã ficaram muito bravas e me trancaram no quarto de dormir das crianças, quer dizer, dos meus sobrinhos. Quando a euforia passou, bateu a abstinência, o mal-estar. Suava muito e não conseguia posição para dormir. Passei a noite em claro, querendo muita água e talvez um banho. Mas estava trancada e a cada batida na porta que eu dava, levava uma bronca. Estava sozinha e com muito medo.

Parar de beber sempre era um desafio. E eu parei de beber algumas vezes, só que nunca resistia ao tranco e bebia. Isso porque o álcool não sai fácil do corpo. Minha impressão era de que meu sangue tinha se transformado em álcool. Sempre doía o peito, me dava falta de ar, mal-estar e uma depressão imensa.

Uma vez uma amiga disse: "É muito drástico o que você faz. Não precisa zerar o álcool da sua vida, vai diminuindo, moderando". Só quem não tem nenhum problema com o álcool pode dizer isso. Já ouvi a mesma coisa de psiquiatras. A famosa "redução de danos". Isso não existe para o doente alcoólico. É preciso zerar, aguentar as abstinências devastadoras e esperar a calmaria.

Quando a calmaria chega, é muito comum voltar a beber. A memória do bêbado é curta.

Acho que fiquei nesse ioiô de beber, parar e voltar, por uns dez anos. No fundo eu sabia que aquele retorno à bebida iria me provocar imensa dor, mas fingia que estava tudo bem. O inferno batia à porta.

Imagina dez anos da vida nesse desgaste emocional?

Nem sei dizer ao certo tudo que representou esse período. Tive muitas perdas, menti demais. Inventava doenças que não tinha, falava que algum parente tinha morrido, mentiras sem conta. Perdi amizades, trabalhos e hoje me envergonho muito. Acredito que todo alcoólatra passa por isso. Dia desses estava em uma reunião online de Alcoólicos Anônimos e um companheiro tinha recaído. Ele não abriu a câmera e disse em seu depoimento que estava muito envergonhado e não conseguia mostrar a cara. Todos entenderam e acolheram.

Abstinência é uma coisa muito séria. Fiquei super incomodada quando vi o marketing para a peça de Barbara Gancia. Depois de um tempo fora de cartaz, a peça está sendo reencenada. A legenda do Instagram falava algo como: "Vocês estavam com abstinência da peça? Nós voltamos". Além dessa frase de gosto duvidoso, havia um desenho de um copo de bebida.

Não tem graça nenhuma. Vão dizer que levo tudo a sério. Não é verdade, mas brincar com a doença não dá. Sou caxias quanto a isso. Sei do sofrimento que o alcoolismo pode trazer para a pessoa.

LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.

Leia o artigo completo