Projeto oferece suporte remoto e consulta virtual a mulheres após parto em maternidades públicas

há 14 horas 1

Um projeto que envolve suporte remoto e consultas virtuais tem orientado mães que tiveram partos em maternidades públicas sobre as principais dúvidas que surgem com a chegada do bebê em casa e, assim, evitado que muitas se desloquem desnecessariamente a prontos-socorros e outras unidades de saúde.

O monitoramento das mães começa na alta hospitalar, por meio de uma central de enfermagem que funciona 24 horas e conta com uma equipe multidisciplinar. Uma das principais dificuldades relatadas nesse período diz respeito à amamentação, com 80% das queixas relacionadas a pega inadequada e dor.

Desenvolvido pela L2D Saúde Digital, empresa especializada em soluções digitais para a gestão pública, que atende mais de 300 unidades de saúde em todo o país, o projeto Aurora foi aplicado na Santa Casa de Tatuí (SP), onde acompanhou 327 mulheres, e agora está em Itupeva, seguindo 41 puérperas.

Segundo Fernanda Andrade, coordenadora de enfermagem e uma das responsáveis pela iniciativa, a ideia surgiu de sua própria prática profissional, como enfermeira de UTI neonatal, ao perceber o vácuo assistencial à mulher durante o puerpério.

Esse período se inicia com a saída da placenta, após o parto, e termina com a primeira ovulação, o que pode levar de 45 a 60 dias, e é considerado crítico para a saúde física e mental da mãe e do bebê. A maioria das mortes maternas, por exemplo, costuma ocorrer nesse período.

"A gente tem uma estrutura muito bacana no SUS voltada ao pré-natal ou dentro do hospital, mas senti muita falta com relação aos cuidados que a mãe vai ter em casa com o bebê. É tudo muito novo e assustador para elas", diz.

Fernanda afirma que, após a alta da maternidade, surgem muitos questionamentos —dor ao amamentar, por exemplo— que podem ser resolvidos a distância. "Isso evita muitas vezes a exposição desnecessária do recém-nascido e da puérpera a uma unidade de saúde só para tirar dúvidas."

Segundo a enfermeira, muitas das necessidades físicas, emocionais e sociais da mãe ficam desassistidas no puerpério. Estudos mostram, por exemplo, que 80% das mulheres apresentam uma discreta tristeza nos primeiros dias após o parto, conhecida como blues puerperal. Dessas, de 10% a 15% podem desenvolver depressão pós-parto.

A dona de casa Leide Escorcio de Oliveira, 30, de Tatuí, foi uma das que recorreram ao projeto durante o puerpério do caçula Benjamin, hoje com quatro meses, para receber orientações sobre como proceder com a inflamação que teve nos pontos da cesárea.

"Mesmo tendo tido dois partos anteriores, nunca tinha passado por isso antes e fiquei muito assustada quando começou a vazar líquido. Eu mandava vídeos, fotos e eles me respondiam com orientações. Me senti olhada, amparada."

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Leide também teve excesso de leite e risco de empedramento, ao mesmo tempo em que o bebê regurgitava muito. Além da orientação virtual, recebeu conteúdos educativos. Em várias ocasiões recorreu ao projeto durante a madrugada, conta.

"Eu me preocupava com a respiração do Benjamin, que parecia um 'roncadinho'. Tinha medo que ele estivesse com o peito cheio. Mandei um vídeo, e eles me acalmaram. Não era nada demais", lembra.

Fernando Palma, diretor de projetos da L2D Saúde Digital, afirma que emergências que requerem atendimento presencial devem ser tratadas diretamente nas unidades de saúde, e as mães são orientadas para isso.

"A ideia não é entrar em conflito com os cuidados [do hospital ou da unidade de saúde], mas sim complementar de uma forma dinâmica, atual, sempre buscando referências."

Segundo ele, várias mães acompanhadas pelo projeto são de regiões mais vulneráveis , fator que dificulta o acesso a um serviço de saúde. Em Tatuí, por exemplo, quase um quinto mora na zona rural.

"É uma realidade delicada. Às vezes, elas pedem ajuda porque o pediatra não foi [ao serviço de saúde]. Mas nós não substituímos consultas necessárias, como o primeiro retorno ao pediatra ou ao ginecologista. Nosso apoio é entre uma consulta e outra."

O projeto oferta também atendimento psicológico, que aborda questões como ansiedade, dificuldades familiares e adaptação à nova rotina. Já a equipe de nutrição fornece orientações sobre alimentação pós-parto e produção de leite.

"Nosso intuito não é forçar a mãe a amamentar. É mostrar para ela que ela consegue, orientar, mas, se não der, tudo bem. Existem outras possibilidades, de ela tirar o leite e fornecer no copinho, por exemplo. O importante é alimentar o bebezinho dela", diz Fernanda.

Silvana de Souza Guerra, 34, de Itupeva, conta que sofreu mais no parto da recém-nascida Rayele do que do filho Raniel, que tem oito anos. Ela teve uma gestação de risco e precisou remover o ovário direito durante a cesárea. A bebê também teve dificuldades para mamar e demorou para pegar o peito.

"Tive muito apoio [do projeto]. Além das orientações da amamentação, aprendi a evitar refrigerante e melhorar a qualidade da minha dieta."

De acordo com Fernando Palma, o serviço oferecido às puérperas é adaptado de acordo com as demandas que elas tenham. Por exemplo, há situações em que bebês prematuros precisam ficar internados ou passar por procedimentos cirúrgicos. Nesses casos, o monitoramento da mãe e do bebê pode ser iniciado ainda durante a internação.

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