Por que Nauru e Lesoto foram dois dos países com maiores tarifas de Trump

há 18 horas 2

Para um país do qual ele disse recentemente que "ninguém nunca ouviu falar", o presidente dos EUA, Donald Trump, destinou a Lesoto, no sul da África, um tratamento bastante duro em sua longa lista de tarifas "recíprocas".

O "reino das montanhas" de 2,3 milhões de pessoas, que é totalmente cercado pela África do Sul, foi um dos vários países, alguns dos mais pobres do mundo, a ser selecionado para as tarifas mais punitivas dos EUA.

Outros incluíram Nauru, o terceiro menor país do mundo, e Mianmar, que está lidando com as consequências devastadoras do grande terremoto do mês passado, mas cujas exportações para os EUA agora terão uma tarifa de 45%.

Saint Pierre e Miquelon, o território ultramarino autônomo da França no noroeste do Oceano Atlântico, cuja principal produto de exportação são crustáceos processados, também entrou na lista. O território francês foi programado para tarifas de 50% no comunicado de imprensa da Casa Branca, embora estivesse entre vários territórios então não mencionados na ordem executiva.

Lesoto, conhecida como "a capital do denim da África", construiu uma indústria têxtil em torno do acesso livre de tarifas aos EUA sob a Agoa (Lei de Crescimento e Oportunidades para a África), que foi introduzida em 2000 para impulsionar o desenvolvimento em países pobres.

Lesoto teve um superávit comercial de US$ 235 milhões (R$ 1,34 bilhão) com os EUA em 2024, de acordo com o Representante Comercial dos Estados Unidos, com marcas como Levi's, Wrangler, Footlocker e Timberland compondo a maior parte dessas exportações. Todas agora terão uma tarifa de 50%.

Mokhethi Shelile, ministro do Comércio do Lesoto, deveria fazer um discurso de emergência ao Parlamento sobre o assunto na tarde de quinta-feira (3).

Thabo Qeshi, chefe da principal câmara empresarial do país, afirmou que seu telefone não parou de tocar desde que os anúncios das tarifas foram feitos. "Trabalhadores sindicais, empresários, trabalhadores do transporte —todos estão em pânico", disse ele. "Essa tarifa de 50% significa que podemos perder toda a indústria têxtil", avaliou.

Os têxteis empregaram 30 mil pessoas diretamente, disse Qeshi, com muitos mais milhares de empregos indiretos em transporte, alimentação, varejo e propriedade. "As pessoas têm perguntado o que podem fazer [para mitigar] o impacto. Mas, como você pode ver, o presidente dos EUA é completamente imprevisível", analisou, acrescentando que o governo enviaria uma delegação a Washington para tornar suas preocupações conhecidas.

Somente no mês passado, em seu primeiro discurso ao Congresso, Trump se referiu ao Lesoto, aparentemente pela primeira vez, dizendo que cortaria US$ 8 milhões em ajuda para "promover LGBTQI+ na nação africana do Lesoto, da qual ninguém nunca ouviu falar".

Muitos países africanos que dependem significativamente da Agoa assumem que ela não sobreviverá à barragem de tarifas. "A Agoa acabou. Está morta na água", comentou Alex Owino, economista no Quênia, ao Africa Confidential.

Entre outros países considerados como tendo travado uma "guerra econômica implacável" contra os EUA —a justificativa de Trump para tarifas "recíprocas"— estão as Ilhas Malvinas, uma dependência britânica que envia moluscos e filés não congelados para os EUA em quantidades aparentemente alarmantes o suficiente para atrair uma tarifa de 41%.

As Malvinas exportaram US$ 27,4 milhões em mercadorias para os EUA em 2023, de acordo com o Observatório de Complexidade Econômica, mas importaram apenas mercadorias avaliadas em US$ 329 mil, um terço das quais foi contabilizado por um único equipamento de transmissão.

A ilha de Nauru, no Oceano Pacífico, cuja economia tem enfrentado dificuldades desde o rápido esgotamento de seus depósitos de excrementos fossilizados de pássaros —um fosfato natural conhecido como guano, que já foi sua principal exportação— também está na relação, apesar de ter exportado apenas US$ 1,16 milhão em mercadorias para os EUA em 2023.

Exportações para os EUA de Nauru, anteriormente conhecida como Pleasant Island, agora terão uma tarifa de 30%. O Vaticano e Mônaco, os dois únicos países menores que Nauru, escaparam com a tarifa básica de 10%.

"Nunca vi ninguém calcular tarifas dessa maneira", afirmou Ha-Joon Chang, economista da Soas em Londres, referindo-se ao que ele chamou de fórmula "bizarra" que chegava aos valores das tarifas com base no superávit ou déficit comercial de cada país com os EUA em 2024.

Ele argumentou que a simples antipatia era a justificativa real para atacar um país como a África do Sul, que repetidamente atraiu a ira de Trump e Elon Musk —esse nascido no país africano e chefe dos cortadores de custos do presidente— com uma tarifa de 30%. "Eles odeiam a África do Sul. Só não tente fingir que você tem alguma lógica econômica por trás disso", apontou Chang.

Autoridades na África do Sul temem que a tarifa de 30% possa devastar a indústria automobilística e de frutas cítricas. Isso poderia destruir milhares de empregos bem pagos em um país com níveis alarmantes de desemprego.

Folha Mercado

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Outro país africano na mira de Trump é Madagascar, uma das nações mais pobres do mundo, com um PIB per capita de apenas US$ 506, de acordo com o Banco Mundial.

A ilha é a principal exportadora mundial de baunilha, uma cultura que precisa ser polinizada manualmente e só cresce bem em países tropicais. Madagascar exportou US$ 143 milhões (R$ 814,53 milhões) em baunilha para os EUA em 2023, de acordo com a OEC, o segundo maior item depois do níquel.

Chang comentou que duvidava que os EUA estivessem tentando criar uma indústria de baunilha própria, dada a necessidade de mão de obra extremamente barata e o clima inadequado da América. "Eu realmente não entendo. Há muita coisa estranha aqui."

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