Podcast explora cidade minúscula ao evitar clichês sobre a América profunda

há 1 dia 1

Don Pavelko, o popular "leitão", está tenso com os rumos de Donora. É véspera de eleição, e ele se preocupa com os rumos que a cidade pode tomar.

Será que o sujeito simpático do departamento de esgoto vai se tornar vereador depois de ser acusado de extorquir uma senhora num golpe? E o ex-metalúrgico, que é tão bom orador e cheio de esperanças, conseguirá reerguer Donora? Os vereadores conseguirão algum avanço em levar uma faculdade comunitária para lá?

Não estamos às vésperas de uma disputa presidencial, mas sim das primárias do pleito municipal de 2017. Num lugar como a pequena cidade de Donora, as primárias quase sempre indicam o que acontecerá depois na votação definitiva. É nesse município da Pensilvânia, nos Estados Unidos, sempre tão lembrada nas eleições americanas, que se passa o podcast documental "Cement City".

As jornalistas Jeanne Marie Laskas e Erin Anderson decidem passar três anos vivendo no local para entender como é a vida ali. Ambas vêm de grandes metrópoles e mal conhecem a realidade de lugares como esse, que não passa de paisagem breve em viagens por rodovias estaduais.

Mas num país que acabou de eleger Donald Trump pela primeira vez a cisão entre grandes centros urbanos e pequenas comunidades se escancara. Laskas e Anderson decidem então mergulhar num mundo que nunca foi o delas.

Ainda que a eleição seja um dos principais temas que abordam sobre seu tempo em Donora, ela não é o único. "Cement City" é um podcast sobre política, mas num sentido mais clássico —a busca pela boa vida numa comunidade e como a cidade é o lugar por excelência para isso.

A casa que compram —por uma mixaria— fica no bairro que dá nome ao podcast, Cidade de Cimento, região onde diversas residências foram erguidas com estrutura toda nesse material. O bairro foi um empreendimento inovador feito ainda em 1916, quando a indústria de cimento crescia e parecia ser um dos indícios de futuro do urbanismo e, porque não, de Donora, à época uma pujante cidade industrial.

Não foi o caso. Donora é parte do cinturão da ferrugem, área definida pela ascensão e posterior decadência de setores industriais como os de carvão e aço, empobrecendo e reduzindo cidades um dia pujantes. Hoje, faltam coisas triviais ali. Não há mercados nem postos de gasolina. Até o único McDonald’s que havia foi embora da cidade.

A empreitada de Laskas e Anderson pode soar a princípio como um típico "quem são? onde vivem?", um turismo antropológico interessado em contar para ouvintes de podcasts nos metrôs de grandes cidades das diferenças exóticas de um lugar provinciano e abandonado.

Não é o caso. Sem dúvida trata-se de uma experiência da diferença para elas, mas a abordagem que adotam escapa com elegância da armadilha de se estereotipar o outro, e isso porque "Cement City" é bastante transparente em relação ao ponto de vista e o lugar de onde vem aquelas que contam a história.

Desde o princípio é com um olhar sensível que elas se dirigem àquele novo mundo e suas histórias, seja às múltiplas formas do desalento presentes na cidade, seja nas tentativas de reerguê-la. Nesse convívio com a cidade, elas tecem suas próprias relações e cultivam um sentimento de proximidade e intimidade com Donora e as pessoas dali. Mesmo essa intimidade, tão arriscada para o trabalho jornalístico, é também e se torna parte da experiência.

Exemplo disso é quando elas falam sobre o Museu do Nevoeiro —ou da poluição atmosférica, já que o termo original é "smog". Em 1948, Donora foi vítima de um desastre ambiental causado pelo acúmulo de poluentes no ar em razão das indústrias da região.

É estimado que o incidente tenha matado 20 pessoas e deixou outras quase 5.000 doentes, numa época em que a cidade era mais populosa do que hoje. O caso foi tão rumoroso que impulsionou a criação de uma lei federal de despoluição do ar —fato lembrado pelo slogan do museu "o ar limpo começou aqui".

A própria criação do lugar foi ideia da mulher de "leitão", concebida numa noite de bebedeira e encampada com orgulho por ele como parte de uma visão de futuro para a cidade, algo que lhe desse uma marca.

É o tipo de circunstância que dá ares cômicos ao lugar e a narradora não deixa de sinalizar como aquilo parece divertido, mas não é com ênfase no pitoresco que Laskas e Anderson contam a história, mas buscando os significados daqueles espaços para quem está ali e dizendo como eles também as tocam.

Assim elas frequentam assembleias na câmara municipal, conversam com crianças na rua, conhecem candidatos a cargos públicos, tecem relações com vizinhos e com os velhos frequentadores do clube de cidadãos croato-americanos.

Inclusive, não há um ponto necessário de chegada, um mistério, um crime, uma conquista a ser alcançada, algo que oriente a narrativa como um problema específico a ser resolvido. Essa é uma das grandes virtudes do podcast, esse deixar-se estar na cidade —e talvez aí esteja o grande tema da produção, a dificuldade da permanência.

A imersão no ambiente se manifesta também na composição sonora dos episódios. A cidade quase sempre está ali, como som de fundo. Há muitas situações de gravação local, seja entremeadas com complementos da narradora que sintetiza a situação ou com reflexões sobre aqueles encontros, quase como microcrônicas da cidade.

A história da ex-cantora de ópera que aos 81 anos é caixa numa vendinha local, estabelecimento que também fracassou em ser uma loja de produtos naturais, ilustra essa tessitura do roteiro. Aí se articulam histórias locais, a posição de quem narra e o aspecto alegórico que cada pequena cena parece ter em relação à cidade como um todo.

Tal como essa loja e sua vendedora, Donora procurou se adaptar à passagem do tempo como possível, criando novos usos para o que já existia. Mas sozinha, sem apoio do governo estadual ou federal, nunca foi capaz de retornar a seus anos de glória.

Neste sentido, é um lugar abandonado, mas que não deixa de ter pessoas ainda arraigadas, com orgulho e desejo de que aquele lugar retome o potencial de ser outra coisa. Enquanto isso não acontece e o novo não encontra espaço, o velho se reacomoda para ainda seguir existindo.

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