Durante a sessão na Câmara dos Deputados realizada para comemorar os 60 anos do Banco Central do Brasil, o atual presidente da instituição, Gabriel Galípolo, disse que "as questões climáticas afetam cada vez mais mandato e atuação do BC".
Seu antecessor, Roberto Campos Neto, vinha apontando a mesma coisa: em meados do ano passado, ele declarou que "os estragos provocados por efeitos climáticos têm se mostrado uma tendência para causar ‘microrrupturas’, com alta nos preços de alimentos e energia". Ainda segundo Campos Neto, isso tende a ser um "fator estrutural" para a economia.
De fato, questões climáticas sempre foram importantes para a economia e para a dinâmica de preços, não somente na agropecuária como na geração e no consumo de energia, entre outros impactos. A questão é que durante muito tempo avaliou-se que, em média, os choques climáticos favoráveis compensariam os desfavoráveis, de modo que, no médio prazo, isso não seria uma questão relevante para a atividade econômica e a inflação tendencial dos países.
Contudo, as mudanças climáticas que vêm ocorrendo no mundo, como a elevação das temperaturas, o aumento de eventos extremos (como secas e inundações), entre vários outros efeitos, estão nos forçando a reavaliar a visão tradicional resumida no parágrafo anterior.
Eis um exemplo prático dos efeitos dessas mudanças: o El Niño é um evento cíclico, que costuma acontecer a cada três ou quatro anos, em média. Não obstante, o aquecimento das águas dos oceanos tende a aumentar a frequência e a severidade desse tipo de fenômeno. Vale lembrar que, segundo diversos estudos, o El Niño gera choques de oferta desfavoráveis sobre a economia em boa parte dos países –ou seja, reduz o PIB e aumenta a inflação, de forma concomitante.
Um trabalho recente publicado na revista Nature, "Global warming and heat extremes to enhance inflationary pressures", identificou, com base no histórico de diversos países, que o aumento da temperatura global eleva a inflação dos alimentos e, também, a inflação total. Com base nos cenários climatológicos mais recentes, os autores projetam que, em 2035, a inflação de alimentos poderá ser pressionada em algo entre 0,9 e 3,2 pontos percentuais, com a inflação total sendo impactada em algo entre 0,3 e 1,2 p.p.
Mas isso não é mera conjetura: esses efeitos já estão impactando o mundo há pelo menos duas décadas.
O Brasil, responsável atualmente por cerca de 6% da produção agropecuária global (e exportador líquido de vários produtos), apresentou, no quinquênio 2018-2022, uma queda média anual da Produtividade Total dos Fatores (PTF) na agropecuária de 1% a.a., segundo estimativas do USDA. Isso depois de registrar variações positivas elevadas, de 3% a.a. ou mais, durante décadas.
Os dados da agência norte-americana vão somente até 2022, mas, em 2024, com o El Niño, tivemos mais uma queda relevante dessa produtividade no Brasil. Convém notar que as previsões não descartam um novo El Niño no final deste ano e em 2026.
Por mais que possamos e devamos tentar amenizar esses efeitos com medidas de adaptação e mitigação, ainda assim boa parte dessas mudanças veio para ficar.
Portanto, precisamos reavaliar várias políticas à luz dessa nova realidade, desde aquelas voltadas à segurança alimentar a alguns aspectos do sistema de metas de inflação (tais como o próprio valor das metas e/ou os intervalos de tolerância).
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