A culpa deve ser de algum equinócio, coitado. No que a Terra entra nas emoções do terceiro mês do calendário, numa reviravolta cósmica conhecida como "fim de março", firma-se um tratado de guerra entre dois tipos de indivíduos extremamente sazonais. Os amantes de Sol a pino, sovacos úmidos e ovos fritando no asfalto, doravante denominados "CALORENTOS". E aqueles que se desmancham em poças, isolados na caverna refrigerada de suas angústias, doravante denominados "FRIORENTOS".
Feito gangues rivais, atiçadas pela polarização climática, calorentos e friorentos lutam de lados opostos da trincheira do mesmo mapa-tempo do Weather.com. Uns, ainda saudosos da cerveja quente do Carnaval. Outros, já ansiosos pelo quentão das festas juninas.
Sabendo que a primavera trocou de lado faz tempo, unindo forças com o maçarico geral, o único cessar-fogo possível se dá no outono. Quando cariocas, é claro, continuarão sendo espezinhados pelo mi-mi-mi de seus cachecóis diante de infames 20°C.
Paulistanos, ostentando eficiência e prevendo, quiçá, -1°C nos termômetros da avenida Paulista, levantarão estandartes de "Na Sibéria não tem isso". Enquanto São Joaquim (SC), alheia a chiliques sudestinos, sente-se pronta desde já. Sem prometer nada, já entregou geada e 3,8ºC dias atrás.
No entanto, um dos maiores deleites outonais –pelo menos para mim– é tirar não apenas casacos do armário mas antigos verbos da gaveta. Perdidos que estavam entre bolotas léxicas de naftalina.
Sufocadas por shortinhos de verão, saias compridas voltarão a "farfalhar". Bem como folhas secas, recém-tombadas no chão da minha rua, hão de "crepitar" debaixo dos meus pés, tal como num samba mangueirense de Chico Buarque. Ou num texto de Carlos Drummond de Andrade, tão mais conhecedor de amendoeiras e folhagens que falam por si só. A ponto de pedir: "Repara que o outono é mais estação da alma que da natureza".
Sim, de uns anos para cá, venho reparando principalmente na luz que tinge de roxo os céus de fim de tarde aqui desta nossa fatia de planeta. Tudo bem, isso tem mais cara de efeito da poluição atmosférica do que da poética da meia-idade, mas.
Nesse sonho de um perrengue pós-verão, espero que possamos todos esfriar sobretudo os ânimos daqueles que negam o aquecimento global. Na certeza absoluta de que não só a figurinha de WhatsApp do Zeca Pagodinho de gorro, chinelo com meia e canelas de fora merece atualizações. Mentalidades também.
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