Menos ferido por Trump, Brasil deveria aproveitar para abrir novos mercados

há 21 horas 1

Especula-se que, além da tarifa mínima, o Brasil acabaria penalizado por uma tarifa de "reciprocidade" de outros 10%, já que a tarifa média americana para produtos brasileiros é de 2,5% e a média brasileira para vendas dos Estados Unidos vai a 11%.

À primeira vista, de todo modo, o Brasil saiu menos ferido do que se previa com o tarifaço de Trump, com a exceção do aço, do alumínio e do setor de autopeças. Todos os veículos estrangeiros vendidos nos Estados Unidos e as autopeças terão taxação extra específica de 25%. O Brasil exportou US$ 1,3 bilhão em autopeças em 2024 para os Estados Unidos.

Além de ficar na tarifa geral mínima, o Brasil pode até ser beneficiado com os prováveis rearranjos nos fluxos de comércio e nas cadeias globais de produção decorrentes das sobretaxas impostas pelos EUA. Para começar, ficar na tarifa mínima traz vantagem ante concorrentes com tarifas mais salgadas. Menos tarifado que asiáticos, por exemplo, o país pode até mesmo ampliar mercados nos Estados Unidos.

Mais do que isso, as vendas brasileiras ao exterior podem ser beneficiadas com a abertura ou ampliação de mercados nos demais países também atingidos pelas sobretaxas americanas.

Exemplo: caso a China resolva retaliar as importações americanas, seria aberto um espaço para incrementar as vendas brasileiras aos chineses. Opera nessa direção a perspectiva de uma benefício recíproca, umas vez que a China deverá buscar incrementar suas exportações para o Brasil, assim como a outros países, na esteira do fechamento de mercados para seus produtos nos Estados Unidos.

Desde o início do que se pode chamar de "crise da reciprocidade", a posição do governo brasileiro sempre foi de cautela e de preferência pela negociação. A inclusão do Brasil na tarifa mínima dá mais suporte a essa linha de de conduta mais pragmática.

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Mesmo que fosse atingido por tarifas mais pesadas, não faria sentido o Brasil aderir a uma guerra comercial. A imensa maioria dos analistas prevê que, com o tarifaço de Trump, os Estados Unidos tenderão a caminhar para uma recessão com mais inflação.

Sem retaliar, o país, como o resto do mundo, já corre riscos de ver a produção se reduzir em ambiente de maiores pressões inflacionárias. Aderindo à retaliação, esses riscos só se ampliariam.

Nem por isso, o projeto de lei, prevendo retaliações comerciais, aprovado em dois dias pelo Congresso, deixa de ser oportuno. O país dispõe agora de um instrumento de Estado — não apenas de governo — para ser usado em caso de necessidade. Mas a nova lei de reciprocidade econômica é como uma bomba atômica — existe para não ser acionada.

É esperado que as sobretaxas americanas desencadeiem uma vasta rodada de negociações entre os países e entre eles com os Estados Unidos. É possível que essa seja inclusive a ideia de Trump, que, segundo muitos, estaria se valendo da imposição de tarifas e do poderio americano para chantagear parceiros e forçar a negociação de vantagens no comércio internacional.

O Brasil deveria aproveitar esse momento até mesmo para rever sua estrutura tarifária de comércio externo e promover ajustes mais liberais nas suas listas de taxação. Há muito a limpar nesse campo em termos de proteção indevida a setores menos eficientes, mas com poder de influência política.

Mais relevante que isso, a defesa da produção nacional e dos empregos, no caso do comércio internacional, é uma via de mão dupla. Abertura de mercados a parceiros comerciais de outros países pode facilitar a abertura de mercados desses parceiros à produção nacional, não só garantindo como aumentando o volume de produção e os empregos nos setores beneficiados.

Opinião

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

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