Mãe chimpanzé e filha desenvolvem gesto só delas para se comunicar

há 2 meses 13

Pais e filhos, ou pessoas que se conhecem bem, frequentemente compartilham alguma expressão que é única para eles —uma frase ou gesto que começou por acaso, mas aos poucos ganhou um significado que só eles conhecem.

O mesmo acontece com Beryl, uma chimpanzé que vive no Parque Nacional de Kibale, em Uganda, e sua jovem filha, Lindsay. Quando Lindsay quer subir nas costas de sua mãe e viajar, ela coloca uma mão sobre o olho de Beryl —um gesto que não se sabe que nenhum outro chimpanzé faça. É o próprio sinal privado delas.

"Existem tantas palavras, gestos ou coisas que são quase como piadas internas, que têm um significado com apenas uma outra pessoa", disse o primatologista Bas van Boekholt, da Universidade de Zurique, na Suíça. "Isso acontece muito frequentemente conosco humanos. E agora também vemos que acontece na natureza, nos chimpanzés."

Van Boekholt notou o gesto pela primeira vez em 2022 durante sua segunda temporada de campo na comunidade de chimpanzés Ngogo, em Kibale. Cientistas têm trabalhado com eles desde o início dos anos 1990, e os chimpanzés estão tão habituados com a presença humana que os pesquisadores os acompanham por horas a fio, muitas vezes observando-os de apenas alguns metros de distância, documentando suas vidas em detalhes.

De particular interesse para van Boekholt está a comunicação dos chimpanzés, especialmente os gestos. Os chimpanzés têm um repertório rico, que usam de maneiras que talvez não se qualifiquem tecnicamente como linguagem, mas são certamente semelhantes à linguagem. Mais de 80 gestos foram traduzidos, incluindo um pedido de comida com a palma para cima e o braço estendido; um arranhão alto e longo que convida ao cuidado; e um pisoteio de dois pés que significa "Pare com isso!"

Quando van Boekholt viu Lindsay colocando a mão sobre o olho de Beryl, "ficou bastante óbvio que ela estava fazendo isso para viajar", disse ele. "Isso despertou meu interesse." Nenhum gesto desse tipo havia sido documentado anteriormente.

O primatologista e seus colegas revisaram gravações que foram feitas antes da chegada dos animais a Kibale. As gravações mostraram que Lindsay começou a fazer o sinal de mão-no-olho quando tinha três anos e meio. No início, o gesto não servia como um pedido para subir nas costas da mãe e partir. Isso começou a acontecer por volta dos quatro anos e meio de idade.

Vários outros jovens chimpanzés em suas comunidades também foram vistos fazendo o movimento, porém nenhum o fez com regularidade ou com a mesma intenção.

Os pesquisadores não sabem como a incomum troca entre Lindsay e Beryl surgiu, contudo eles têm uma teoria. Como qualquer criança habilidosa, Lindsay teria movido as mãos enquanto estava nas costas de sua mãe --mas Beryl não tem um olho. (Os cientistas não conhecem a história; o olho já estava faltando quando Beryl se juntou à comunidade de Ngogo em 2012.) Quando Lindsay inevitavelmente cobriu o olho bom, ela estava destinada a provocar uma resposta.

Talvez isso tenha levado Beryl a repetir a ação. Conforme a interação ocorria repetidamente, gradualmente ganhou significado.

Em um estudo publicado recentemente no periódico Animal Cognition, van Boekholt e seus colegas contextualizaram a história dos chimpanzés dentro de um debate contínuo sobre a natureza dos gestos deles e, talvez, as raízes da linguagem humana.

Alguns pesquisadores sugeriram que os gestos de outros grandes primatas —família que inclui bonobos, orangotangos, gorilas e humanos— são uma parte fixa da herança biológica da espécie. Se assim fosse, os gestos seriam um modo de comunicação relativamente limitado e inflexível, não muito parecido com a linguagem ou gestos humanos. E, uma vez que todos os chimpanzés se baseariam na mesma herança, não haveria casos do que os primatólogos chamam de gestos "idiossincráticos", usados apenas por um ou dois indivíduos.

Outros cientistas argumentam que a aprendizagem social é fundamental. Isso poderia envolver observar e imitar os gestos de outros chimpanzés. Também poderia envolver, por meio da negociação informal que ocorre quando dois indivíduos interagem, o surgimento de uma compreensão compartilhada em torno de um movimento que originalmente não era comunicativo.

Isso seria de fato um sistema mais flexível, parecida com a linguagem —e gestos únicos e idiossincráticos seriam esperados que surgissem dentro dele. O gesto de mão-no-olho de Lindsay e Beryl parece se encaixar nesse perfil. "Vemos que nem tudo é pré-programado", disse Simone Pika, coautora do novo estudo e etóloga da Universidade de Osnabrück, na Alemanha. "Eles estão criando novos sinais."

"Há apenas 1% de diferença de DNA entre nós e os chimpanzés, certo?", acrescentou Pika. "Então por que sempre criamos essas grandes lacunas em vez de dizer, 'Quais são as coisas que estamos compartilhando?' E estamos compartilhando gestos."

Cat Hobaiter, primatologista da Universidade de St. Andrews, na Escócia, que não esteve envolvida na pesquisa, alertou que o gesto de mão-no-olho pode não se qualificar tecnicamente como idiossincrático. Talvez seja simplesmente incomum. Mas claramente foi "moldado em uma expressão específica entre mãe e filha", disse ela.

Para Hobaiter, a dicotomia natureza versus criação que caracterizou o debate sobre gestos de chimpanzés está evoluindo para uma apreciação mais sutil de que ambas as influências são importantes. Pika concordou.

É claro, a história de Beryl e Lindsay é apenas um ponto de dados. Conforme cientistas reúnem mais exemplos, o código privado de mão-no-olho do par permanece um lembrete comovente de quão semelhantes os chimpanzés são em relação aos seus parentes vivos mais próximos.

"Você não pode deixar de notar o quão parecida com os humanos é essa interação", disse van Boekholt, acrescentando sobre Lindsay: "Me disseram que ela ainda o está usando hoje, mesmo que esteja definitivamente ficando velha demais para andar nas costas de sua mãe."

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