Em clima pré-paralímpico, imagine um cenário em que atletas têm técnicos virtuais que analisam dados biométricos e criam planos de treinamento personalizados.
O mesmo treinador armazena conversas sobre o estado mental do esportista e emite conselhos em tom afetuoso. Os espectadores desses esportes contam com um apresentador capaz de transmitir notícias 24 horas por dia, em diferentes idiomas, adaptando-se às preferências de cada um.
Parece promissor, interessante e factível com inteligência artificial. No dia a dia, porém, quando a tecnologia assume posição supostamente discreta é mais celebrada pelo público em geral.
Um avatar poliglota que resume as notícias esportivas do dia nas redes sociais frequentemente gera milhares de comentários de desaprovação, irritação e até xingamentos. Entretanto, quando um repórter usa tecnologia para aproximar uma campeã olímpica de seus familiares no Brasil, em tempo real, o resultado é contabilizado em lágrimas emocionadas.
Próteses e órteses que entendem comandos e estímulos musculares por meio de IA não dispensam o paratleta de treinos físicos, assim como óculos inteligentes não tiram da pista os atletas-guia.
Diante da onda gigante de informações e das entregas cada vez mais impressionantes dos modelos generativos, surgem dois impulsos. Um deles é o de surfar a todo custo e investir tempo e energia para que uma IA assuma todos os processos —inclusive aquilo que você faz de melhor; o outro, é incorporar Brett Hawke, técnico da natação da Austrália nas Olimpíadas de Paris, que, indignado com a performance recordista do chinês Pan Zhanle, rechaçou o que considerava "humanamente impossível".
É tudo ou nada.
A fala de Hawke obviamente não se referia a softwares e hardwares, mas encontra eco em outros mercados. A Procreate, por exemplo, desenvolvedora de um dos principais aplicativos de design para iPad, recusa-se a lançar funcionalidades com IA generativa. Em um manifesto no site, afirma que "criatividade é feita, não gerada" ("Creativity is made, not generated").
A esta altura do cronômetro, porém, já deu para notar que o uso de IA permite ir mais longe, mais rapidamente. Negar o que parece sobre-humano também significa perder em diversas modalidades.
Encarar a IA como um eficiente meio-campista, não como o atacante principal, pode ser uma estratégia perspicaz nos tempos atuais. É mais fácil marcar gols quando agilidade, passes otimizados e menos falhas humanas estão assegurados. Um assistente bem posicionado pode até errar às vezes, mas pode decidir a partida.
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