Para a SpaceX, até agora, 2025 deveria ter sido seu melhor ano.
Elon Musk, fundador da empresa espacial privada, é uma das pessoas mais influentes no Salão Oval, e o presidente Donald Trump endossou sua visão de enviar humanos a Marte.
Porém, até agora, não tem sido um ótimo ano para a empresa de foguetes. O veículo que é central para o objetivo de chegar ao planeta vermelho, o Starship, foi lançado duas vezes e, em ambas, explodiu.
A última explosão ocorreu na quinta-feira (6) durante o oitavo voo de teste, menos de dois meses depois do sétimo também acabar desintegrado no espaço. Novamente, uma chuva de destroços caiu, criando uma dor de cabeça para passageiros ao redor da Flórida e do Caribe que não estavam acostumados a ver "destroços espaciais caindo" como motivo de atrasos de voos. Nos dois casos, ninguém se feriu.
Explosões não são necessariamente falhas para uma empresa que prosperou com uma mentalidade de "lançar, quebrar, consertar, lançar novamente". Com inovações como o pouso e a reutilização de propulsores de foguetes, a SpaceX reduziu drasticamente o custo de enviar algo para o espaço. O Starship, projetado para ser totalmente reutilizável, tem o potencial de revolucionar o negócio de foguetes mais uma vez.
No entanto, as duas explosões representaram um retrocesso no processo de desenvolvimento da SpaceX, já que os voos não conseguiram repetir os sucessos dos testes anteriores, e talvez mostrem que os engenheiros da empresa não são infalíveis como os fãs da empresa às vezes gostam de pensar.
"Há essa persona que se construiu em torno da SpaceX, mas você está começando a ver que eles também são humanos", disse Daniel Dumbacher, ex-funcionário da Nasa que hoje é professor de engenharia na Universidade de Purdue e diretor de inovação e estratégia da Special Aerospace Services, uma empresa de engenharia e fabricação cujos clientes incluem a Nasa, a Força Espacial dos EUA e concorrentes da SpaceX.
Os atrasos também podem ter repercussões para a Nasa, que contratou a SpaceX para usar uma versão do Starship para pousar astronautas na Lua em 2027 durante a missão Artemis 3.
Os dois Starships perdidos, que falharam menos de dez minutos após o lançamento, eram um design atualizado. Eles foram menos bem-sucedidos do que uma versão mais antiga do Starship que voou no ano passado. Três voos de teste anteriores navegaram com sucesso pela metade do mundo, sobreviveram à reentrada na atmosfera sobre o oceano Índico e depois simularam pousos no mar na costa oeste da Austrália.
Além disso, as falhas do sétimo e do oitavo teste ocorreram mais ou menos na mesma parte do voo, e ambas parecem ter origem perto dos motores da espaçonave (segundo estágio). Isso sugere que a SpaceX não conseguiu diagnosticar e resolver o problema com sucesso. E pode apontar para uma falha significativa no design da Starship atualizada.
A SpaceX precisa demonstrar que o Starship pode permanecer em órbita por um longo período de tempo, e então sair da órbita e retornar ao local de lançamento para ser capturada pelos braços mecânicos na torre de lançamento —o propulsor Super Heavy (primeiro estágio), que não vai para a órbita, fez isso com sucesso três vezes. A empresa também tem de mostrar que pode lançar vários Starships em rápida sucessão.
O principal é demonstrar que pode transferir propelentes de oxigênio líquido e metano de um Starship para outro. Esse procedimento é fundamental para permitir que a espaçonave acumule combustível suficiente para ir à Lua ou a Marte.
Assim, o Starship que vai alcançar a Lua terá que permanecer em órbita terrestre enquanto outros Starships são lançados para levar propelentes para reabastecer os tanques do Starship de pouso lunar.
Musk afirmou que a transferência de propelente é um exercício simples. Mas bombear tanto líquido tão rapidamente enquanto flutua em órbita nunca foi tentado, e ainda não se sabe quantos lançamentos serão necessários para uma única missão lunar —talvez até 20.
"Simplesmente não sabemos como o desempenho do tanque será", afirmou Amit Kshatriya, vice-administrador associado do programa Lua para Marte da Nasa, em dezembro. A declaração foi dada em um evento sobre o programa Artemis no Centro Espacial Kennedy da Nasa, na Flórida. "Simplesmente não sabemos."
Na época, Kshatriya disse que a agência espacial descobriria isso em breve, pois a versão de longa duração do Starship deveria ser lançada em breve. Então, a SpaceX também poderia testar sua capacidade de operar dois Starships em órbita simultaneamente e determinar quão eficientemente pode mover propelentes entre duas espaçonaves.
Essas descobertas, por sua vez, ajudariam a Nasa a montar um cronograma realista para a missão Artemis 3.
Mas o cronograma descrito por Kshatriya pressupunha que não haveria grandes contratempos. Com a Administração Federal de Aviação (FAA, na sigla em inglês) impedindo novos voos do Starship até a SpaceX concluir uma investigação sobre a falha do oitavo teste, a estreia do Starship de longa duração pode ser adiada para o meio do ano ou mais.
Em depoimento a um comitê da Câmara no mês passado, Dumbacher disse que o sistema Starship, com a multiplicidade de voos de abastecimento, era grande demais e muito complicado para atender à data-alvo atual de 2027 para Artemis 3 ou mesmo 2030, quando a China planeja pousar astronautas na Lua.
Dumbacher até propôs que a Nasa mude para um módulo de pouso menor e mais simples para melhorar as chances de a agência americana vencer a corrida lunar do século 21 com a China. Como a SpaceX deve realizar uma demonstração de seu módulo de pouso Starship sem astronautas a bordo antes da missão Artemis 3, um pouso bem-sucedido de astronautas na Lua usando o Starship poderia exigir até 40 lançamentos.
Ele não considerava altas as chances de tantos lançamentos bem-sucedidos. "Preciso reduzir drasticamente esse número de lançamentos", disse Dumbacher durante a audiência. "Preciso simplificar."