Diário secreto de Joan Didion revela câncer desconhecido e relacionamento abusivo

há 20 horas 2

Textos inéditos de Joan Didion estão prestes a ser publicados nos Estados Unidos. O livro intitulado "Notes to John" (notas para John, em tradução livre) trata-se de um diário que a americana escreveu de 1999 a 2001 sobre suas sessões com o psiquiatra Roger MacKinnon.

Os relatos foram encontrados por curadores literários de Didion pouco depois de sua morte em 2021 e eles decidiram publicar os escritos, que pareciam mais íntimos do que qualquer coisa já publicada no nome da autora. Todo o diário foi escrito para John Gregory Dunne, marido da escritora que morreu em 2003.

As anotações recriam as sessões com MacKinnon com o imediatismo de uma lembrança fresca. Em alguns momentos Didion reproduz falas dela e do médico em citações diretas, em outros ela conta da sessão e de suas impressões se direcionando ao marido.

A busca por compreensão e a clareza que marcam grandes obras de Didion como "O Ano do Pensamento Mágico" (2005) e "Noites Azuis" (2011) já aparecem nestes relatos.

Em trechos do diário publicados pela revista New Yorker, é possível conhecer partes da vida de Didion que ela nunca havia revelado. É o caso de um câncer que a autora enfrentou silenciosamente ao lado do marido e só contou para amigos próximos anos depois de começar o tratamento de radioterapia.

Didion também fala com o terapeuta sobre um relacionamento abusivo que viveu antes de se casar. Ela revela que foi vítima de violência doméstica e que terminou a relação quando percebeu que não fazia bem a ela. O namorado que não é nomeado tinha problemas com bebida, enfrentava uma depressão e foi a pessoa que lhe apresentou ao futuro marido, John Dunne.

Mesmo casada ela manteve uma boa relação com o ex-namorado, mas deixaram de ser amigáveis depois que ele a processou por um personagem de seus livros. Ela conta que o personagem em questão não era baseado nele, mas também batia em sua mulher. Pelo relato conclui-se tratar do personagem Carter, do livro "Play as It Lays" (1970).

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A ansiedade é um tema constante de suas sessões de psiquiatria. Apesar de tomada por preocupações, Didion se recusa a tomar remédios. Ela afirma que o Zoloft, um medicamento antidepressivo, tira dela sua personalidade. Didion acredita ser dependente da ansiedade constante para funcionar.

Uma de suas maiores fontes de ansiedade é a filha Quintana Roo, que adotou com o marido John Dune. Na época dos relatos, Quintana tinha em torno de 35 anos e sofria de depressão e vício em álcool. Didion reconhece na filha os mesmos traços suicidas que via no pai desde a infância. Apesar de seus medos, nenhum dos dois morreu por suicídio

No diário, MacKinnon define o padrão da escritora para lidar com traumas, o mesmo que pode ser observado em suas outras obras autobiográficas. "Você segue em frente, vai levando, controla a situação por meio do seu trabalho e da sua competência. Mas o medo ainda está lá", ele diz à Didion.

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