A "Vale Tudo" original, transmitida em 1988, foi a última novela das 21h da Globo a sofrer os cortes da ditadura militar. A Divisão de Censura de Diversões Públicas, ou Dibrarq, analisava o roteiro de cada episódio em busca de cenas e falas consideradas inapropriadas. Ao contrário do que se pode pensar, no entanto, a censura estava mais preocupada em fatiar termos tidos como chulos e temas ligados à sexualidade do que temas políticos e econômicos, que não faltaram na atração.
"Foi uma novela muito importante justamente por ter mostrado a questão da corrupção, criticado diretamente políticos e as mazelas da situação política e econômica no país de uma maneira mais didática e direta do que as antecessoras", diz Ana Paula Gonçalves, que estudou o seriado para seu doutorado, transformado no livro "O Brasil Mostra a sua Cara". "O que era cortado eram coisas mais voltadas para questões da família, aquela coisa hipócrita dos bons costumes, do que para a política mesmo."
O jornalista e pesquisador Cláudio Ferreira mapeou alguns dos cortes sofridos por "Vale Tudo" em seu livro "Beijo Amordaçado", sobre a censura às novelas durante a ditadura. Na primeira fase da novela, já na sinopse, os censores pediram "cuidados especiais" em diálogos "questionando e estimulando relacionamentos íntimos" e no emprego "gratuito" de termos chulos, como escreve Ferreira.
Nos primeiros capítulos, são cortadas expressões como "Porra, meu, tava lá com a gata!" e "O senhor sabe para quem a fulana tá dando?", além de cenas com descrições mais quentes, como "mulher de roupão de banho acariciando o próprio corpo", "homem deitado sobre corpo de mulher com nádegas à mostra", "casal na cama com homem seminu" e "insinuação de felação".
A emissora tentou, sem sucesso, convencer a censura a liberar uma fala mais extensa sobre sexo do capítulo 53. "Com amor eu acho melhor, mais completo, mas é uma sensação diferente… eu acho bem melhor depois, sabe? Dá uma certa paz que só a transa pela transa não traz. Mas de vez em quando soltar o bicho na base do 'Hello, Goodbye' também pode ser muito excitante", diria um personagem.
"O tema abordado, além de demasiado adulto, poderá sem sombra de dúvida induzir jovens imaturos ao engano de aceitar o relacionamento sexual descompromissado como atitude correta, e, o que é pior, como um procedimento necessário e saudável", justificou o órgão.
A relação entre as personagens Cecília e Laís, interpretadas por Lala Deheinzelin e Cristina Prochaska, foi a que mais sofreu cortes, o primeiro deles no capítulo 35, em que uma cena removida descrevia que as personagens estavam "em atitude mais íntima". A partir do capítulo 55, quando este núcleo na novela passaria a ganhar mais atenção, o DCDP desceu a navalha. "De forma apologética, [a novela] coloca-o como uma opção natural de vida que deve ser aceita sem nenhum preconceito", escreveram as censoras Sara Oliveira Farias e Jeanete Maria de Oliveira Faria ao explicar os vetos.
Na justificativa de outra omissão sobre o mesmo tema, foi dito que a novela tratava a homossexualidade, chamada de desvio de comportamento, "de forma absolutamente natural, isenta de problemas, o que sabemos está longe de corresponder à realidade". Uma cena de carinho entre as mulheres foi proibida de ser transmitida em um trailer de "cenas do próximo capítulo" do episódio 59, bem como no próprio capítulo.
Dias depois, surgiu um novo parecer sobre o tema, contraditório. "Embora se denote, através de diálogos, a relação lesbiana entre as duas, o tratamento conferido às situações é condizente com o horário a que se destina o programa. A nosso ver, excetua-se deste contexto as cenas que mostram excessivo carinho entre as personagens nas cenas dos próximos capítulos do 74 e no capítulo 75".
Após as pressões, as personagens passam a aparecer menos na novela. O último corte está no parecer dos capítulos 115 a 120 e diz respeito a uma cena descrita como "preparação para ato sexual do casal".
Apesar da perseguição do órgão censor à trama homoafetiva, o jornalista Mauricio Stycer, colunista da Folha, chama atenção para um equívoco comum. A morte da personagem Cecília não aconteceu por pressão externa, mas já estava prevista no roteiro original. Gilberto Braga queria usar o acontecimento para discutir o direito de herança entre homossexuais. A ideia surgiu quando seu amigo, Jorginho Guinle, morreu, e sua mãe tentou impedir que seu marido, Marco Rodrigues, fosse reconhecido como herdeiro legítimo.
As passagens em que esta questão seria abordada foram revistas pelos autores, que já previam o veto da censura. Num diálogo entre Marco Aurélio e Renato após Cecília morrer, o vilão da trama diz, "Mais um motivo pra essa mulher vender a parte dela pra mim e lamber os beiços, porque saiu lucrando. Entrou nessa com a cara e a coragem, sai com a metade de uma pousada, tá ótimo".
Renato responderia, "Com a cara e a coragem? Entre com muita garra, know-how, carinho, amor. As duas construíram essa pousada juntas." "Amor" foi substituído por "dedicação" na versão que foi ao ar. Quando, numa fala seguinte, Renato diria que Laís e Cecília viveram juntas, acabou dizendo que elas trabalharam uma com a outra.