Uma briga pode levar ao fim uma das experiências mais bem-sucedidas da música independente no Brasil, que fez o rap voltar a ter ambições depois de uma era de vacas magras. O motivo é a disputa entre Emicida e Fióti, os dois nomes por trás da produtora Laboratório Fantasma, pelos lucros da empresa.
A cisão, que veio a público na semana passada, envolve uma batalha milionária. Em processo que corre na Justiça de São Paulo, o rapper acusa o irmão de desviar R$ 6 milhões da produtora.
Depois de identificar as retiradas, em janeiro deste ano, Emicida anulou uma procuração que dava a Fióti poderes de gestão na sociedade, barrando o acesso dele às contas do Laboratório Fantasma. Foi aí que o caso parou nos tribunais. Em processo na Justiça de São Paulo, Fióti pede para ter o acesso às contas restabelecido. Também quer que o irmão seja impedido de retirar dinheiro da empresa ou assinar novos contratos. O processo corre na esfera cível.
O empresário, que também é músico, diz que as acusações do rapper são infundadas e que está arrasado com a briga. Segundo Fióti, as transferências de dinheiro eram retiradas de lucros a que tinha direito —e elas teriam sido informadas ao irmão.
Quando foi criado, há 15 anos, o Laboratório Fantasma representava o sonho de todo rapper —ter uma Roc Nation no Brasil. A empresa americana fundada por Jay-Z em 2008 atua não só como gravadora de gente como Rihanna, mas também gerencia a carreira dos artistas, tem braços na moda e até nos esportes —o craque Vinicius Júnior, eleito o melhor jogador de futebol do mundo pela Fifa, é agenciado pela companhia.
As empreitadas de Jay-Z se tornaram paradigma de sucesso no rap. Na visão desses artistas, os executivos brancos das grandes gravadoras nunca compreenderam o estilo musical, então produzir sua obra por conta própria era o caminho mais desejável.
Isso não era novidade no Brasil. Os Racionais MCs, nos anos 1990, venderam milhões de discos por meio da própria empresa, a Cosa Nostra, numa situação que chocou as gravadoras brasileiras.
Emicida já era conhecido das batalhas de rima quando despontou, em 2008, com a música "Triunfo", que abriu caminho para a mixtape "Pra Quem Já Mordeu um Cachorro por Comida, Até que Eu Cheguei Longe", de 2009.
Ao ser criada em 2010, com a segunda mixtape de Emicida, a empresa fez o rap voltar a ter esperança. O gênero vivia uma época esvaziada após a morte de Sabotage, em 2003. Ao longo da década, o selo virou referência. Além do sucesso de Emicida, emplacou hits de rádio com Rael, montou um escritório com estúdio e apostou em novos artistas, como Drik Barbosa.
Também transcendeu a música e se tornou marca de roupas, apresentando coleções na São Paulo Fashion Week em 2016 e 2017. Foram desfiles memoráveis, em que o rapper e sua trupe levaram corpos negros e fora dos padrões ao espaço elitizado onde o rap nunca tinha sido bem-vindo.
O clipe de "Mandume", de 2015, é a peça mais representativa daquele momento, assim como o selo, alinhado com as discussões sobre representatividade e afirmação de identidades marginalizadas. O vídeo traz Emicida com outros cinco MCs, todos vestindo Lab —a marca de roupas— e incluindo tipos que não eram comuns nem no rap —uma mulher e um gay, por exemplo.
Diferente dos Racionais, que nunca nem sequer apareceram na TV Globo, o Laboratório Fantasma se infiltrou no establishment. Fez trabalhos patrocinados por marcas, o que ajudou a viabilizar os projetos artísticos, e Emicida chegou a participar do programa Papo de Segunda, do GNT.
Os shows do álbum "AmarElo", em 2019, no Theatro Municipal de São Paulo, foram o auge da proposta da empresa, com a ideia de ocupar espaços onde o rap e as pessoas negras não estavam. Era também o começo do fim.
Ainda que Rael mantenha carreira sólida, com um novo álbum na pista, outras apostas da empresa nunca vingaram —casos de Drik Barbosa e da produção musical de Fióti. A marca de roupas agora se resume às peças de merchandising de Emicida.
Hoje, o Laboratório Fantasma não lança talentos e funciona em torno de seu principal nome. O próprio Emicida também se vê numa sinuca de bico —perdeu parte de seu público mais fiel conforme ganhou prêmios e prestígio ao entrar em círculos da MPB e suavizar sua música.
Ser chamado de "vendido", seja isso verdade, seja mentira, é uma consequência possível do artista independente que é abraçado pelo establishment. Sobre "Triunfo", canção que considera um manifesto da gravadora, Emicida disse à Folha em 2008 que "a música tinha que parecer uma pá de soco".
"Tinha nem refrão. Foi o Felipe [Vassão, produtor] que comeu minha mente para pôr refrão. Eu falava que era bagulho de vendido. Pula para dez anos depois, o cara cantando ‘Passarinhos’."