Adolescência e autismo: quando o mundo interno é mais complexo que o externo

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Inspirada na série da Netflix, reflexão busca ampliar o olhar para os desafios emocionais enfrentados por adolescentes no espectro autista

Reprodução/Netflix

série everything now

Em 'Everything Now', a protagonista Mia retorna à rotina escolar com pressa de 'viver tudo o que perdeu', tentando se adaptar aos códigos sociais

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Sabemos que o TEA já envolve muitas vulnerabilidades, e é justamente por isso que reforçamos: com escuta, apoio e orientação adequada, é possível transformar desafios em caminhos mais leves. A série Everything Now”, da Netflix, retrata os altos e baixos da vida de uma jovem em busca de pertencimento após um período de afastamento da escola. Mesmo sem abordar diretamente o autismo, a produção toca em pontos centrais que atravessam a adolescência de qualquer jovem: inseguranças, ansiedade, desejo de aceitação e dificuldades de comunicação. Para os adolescentes com Transtorno do Espectro Autista (TEA), essas questões ganham camadas ainda mais profundas — e muitas vezes invisíveis aos olhos de quem está ao redor.

Enquanto muitos adolescentes encontram estratégias para se expressar, os jovens no espectro podem ter maior dificuldade em compreender e traduzir suas emoções. Observamos diariamente o quanto a fase da puberdade pode ser solitária e desafiadora, mesmo em meio a grupos, redes sociais e uma família presente. O adolescente autista sente tudo com intensidade, mas pode não encontrar as palavras, os gestos ou o ambiente seguro para se colocar no mundo.

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Sensibilidade, rigidez e a busca por pertencimento

Na série, Mia, a protagonista, retorna à rotina escolar com pressa de “viver tudo o que perdeu”, tentando se adaptar aos códigos sociais que mudaram durante sua ausência. Essa sensação de inadequação é comum entre adolescentes autistas, mesmo quando não houve uma pausa formal na convivência. Pequenas mudanças de dinâmica social, gírias novas, alterações na rotina ou na aparência dos colegas podem gerar confusão, ansiedade e sensação de exclusão.

É comum também que adolescentes com TEA apresentem hipersensibilidade sensorial (a barulhos, luzes, cheiros) e emocional (interpretação literal de falas, dificuldade em entender sarcasmos ou duplo sentido), o que pode tornar o ambiente escolar um verdadeiro campo minado. A série, ainda que com outra abordagem, acerta ao mostrar como o mundo externo pode parecer excessivamente caótico para quem está tentando apenas entender o que sente.

Precisamos falar sobre saúde mental e neurodiversidade

Em tempos de aumento nos índices de ansiedade, automutilação e depressão entre adolescentes, é urgente incluir o autismo nessa conversa. Jovens neuroatípicos estão mais vulneráveis ao sofrimento psíquico, especialmente quando não recebem o suporte necessário para desenvolver autonomia emocional, habilidades sociais e segurança sobre quem são.

A adolescência exige que se estabeleçam relações — de amizade, afetivas, de identidade. E isso pode ser extremamente desafiador para quem tem dificuldade em compreender pistas sociais, controlar impulsos ou lidar com frustrações. Em vez de rotular esses jovens como “difíceis” ou “desajustados”, precisamos escutá-los com atenção e acolhê-los sem julgamentos.

Representatividade e empatia: caminhos para um mundo mais inclusivo

Ainda que “Everything Now” não fale sobre o TEA, ela pode ser um ponto de partida potente para conversar sobre o que é ser diferente — e o quanto essa diferença precisa ser respeitada. A representatividade de personagens autistas nas séries e filmes ainda é pequena, mas cresce à medida que a sociedade começa a compreender o valor da diversidade neurobiológica.

Na Semana de Conscientização do Autismo, vale lembrar: nem todo adolescente autista é igual. Alguns são orais, outros utilizam sistemas de comunicação aumentativa alternativa para que seja possível se comunicarem. Alguns gostam de interações sociais, outros preferem ficar sozinhos. Todos, no entanto, têm algo em comum: o direito de viver sua adolescência com dignidade, apoio e compreensão.

Que possamos, como educadores, profissionais da saúde, familiares e cidadãos, ampliar nossos olhares. E que mais séries, mais conversas e mais espaços deem voz à complexidade que é ser adolescente — no espectro ou fora dele.

*Por Marina Trunci – CRP 06/79236
Psicóloga, Psicopedagoga, Mestre em Distúrbios do Desenvolvimento, Especialista em Análise do Comportamento Aplicada e Co-founder da Clínica Formare

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